EUA mantêm mais da metade das embaixadas sem embaixadores em meio a tensão com o Brasil
O governo dos Estados Unidos enfrenta um cenário de esvaziamento diplomático, com mais da metade das embaixadas americanas no exterior sem um embaixador oficialmente nomeado.
O levantamento ocorre em meio à crise entre Washington e Brasília, após a revogação do visto da embaixadora brasileira nos EUA, Maria Luiza Viotti.
A decisão do governo de Donald Trump foi anunciada sob a justificativa de que o Brasil estaria demorando para conceder o agrément — aprovação necessária para a nomeação — ao indicado americano para a embaixada em Brasília, Daniel Perez.
Segundo dados da Associação Americana do Serviço Exterior (AFSA), 106 dos 195 postos de embaixador dos Estados Unidos no mundo estão atualmente vagos. Entre eles estão representações em países considerados estratégicos no cenário internacional, como Ucrânia, Rússia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
A situação também atinge nações importantes para negociações no Oriente Médio. Catar e Paquistão, por exemplo, estão sem embaixadores americanos, apesar do papel desempenhado por esses países em articulações diplomáticas e mediações de conflitos.
Do total de vagas abertas, 35 já possuem nomes indicados, mas ainda aguardam a conclusão do processo de aprovação e credenciamento. É o caso de Daniel Perez, escolhido pelo governo Trump para representar os Estados Unidos no Brasil.
Os números indicam que a administração americana não tem demonstrado pressa em preencher os principais cargos da diplomacia. Apenas nove dos postos atualmente ocupados têm diplomatas de carreira como representantes.
A política externa do governo Trump tem priorizado nomes alinhados ao presidente, incluindo aliados políticos, empresários e pessoas próximas à família presidencial. Entre os principais articuladores internacionais está o empresário Steve Witkoff, enviado especial da Casa Branca para missões diplomáticas de alto nível.
A influência de integrantes da família Trump também permanece presente. Charles Kushner, consogro do presidente, ocupa o cargo de embaixador dos Estados Unidos na França. Já Massad Boulos, pai do marido da filha Tiffany Trump, atua como conselheiro sênior para assuntos árabes e do Oriente Médio.
Ao assumir o comando do Departamento de Estado, o secretário Marco Rubio afirmou que buscaria fortalecer a diplomacia americana. No entanto, ex-funcionários da pasta relatam um processo de redução da estrutura e afastamento de diplomatas experientes.
De acordo com a AFSA, cerca de 2 mil diplomatas deixaram o Serviço Exterior americano no último ano, entre demissões e aposentadorias compulsórias. O Departamento de Estado, porém, rejeita a avaliação de que esteja ocorrendo um desmonte da diplomacia dos Estados Unidos.
Para a ex-diplomata Elizabeth Horst, que possui mais de 25 anos de experiência em países como Afeganistão, Paquistão e nações europeias, a saída de profissionais experientes reduz a capacidade dos Estados Unidos de responder a crises internacionais.
“Quando há uma crise, simplesmente não temos a infraestrutura que tínhamos antes para garantir a segurança dos americanos no exterior e proteger nossos interesses comerciais”, afirmou.




