Caso Alexandre Bruno ganha novo capítulo: de denúncia envolvendo pisos em 2024 a afastamento por suspeita de desvio de cargas
Delegado já havia sido citado em uma denúncia publicada em 2024 envolvendo uma franquia de pisos, o deputado Ricardo Quirino e pedidos de prisão contra empresários; agora, Justiça determinou seu afastamento por 90 dias em investigação sobre suposto desvio de cargas apreendidas
O delegado da Polícia Civil de Goiás Alexandre Bruno de Barros voltou ao centro de uma investigação de grande repercussão após a Justiça determinar, nesta quarta-feira (2), seu afastamento das funções por 90 dias. A medida também atingiu o escrivão Sílvio Pereira de Macedo e o policial civil Antônio Gomes de Assis Sobrinho.
Os três são investigados pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO) por suposta participação em um esquema de desvio e venda irregular de cargas apreendidas durante operações policiais. A investigação ganhou força a partir do desaparecimento de uma carga de vergalhões avaliada em aproximadamente R$ 1,4 milhão, apreendida em 2021 durante a Operação Fogo Amigo.
A nova decisão judicial, porém, não é o primeiro episódio envolvendo o nome de Alexandre Bruno que chama atenção. Em abril de 2024, o G5News publicou uma reportagem sobre uma denúncia envolvendo o delegado, o então deputado estadual Ricardo Quirino, o empresário Tiago do Piso e um casal ligado à franquia Feirão do Porcelanato.
A denúncia de 2024
Na época, uma reportagem produzida a partir de documentos, áudios e relatos apresentados ao G5News e ao programa Goiás da Gente com o apresentador Messias da Gente , da Rádio Mania FM, apontou uma disputa empresarial que, segundo a denúncia apresentada pelo empresário Tiago do Piso, teria provocado prejuízo estimado em R$ 2 milhões.
Os personagens centrais da denúncia eram Fabrício Gonçalves Cavalcante Barros, então ex-servidor do gabinete do deputado Ricardo Quirino, e Isabela Barros de Carvalho Cavalcante, sobrinha do delegado Alexandre Bruno.
Segundo os documentos apresentados na ocasião, o casal teria adquirido uma franquia de Tiago por cerca de R$ 400 mil, com pagamento parcelado, além de realizar compras de produtos por meio de cheques que, segundo a denúncia, apresentaram problemas de assinatura. A situação posteriormente evoluiu para uma disputa judicial e criminal entre as partes.
Durante uma auditoria, o empresário afirmou ter identificado irregularidades na movimentação dos produtos e relatou que parte dos pisos teria sido levada para a residência da mãe de Fabrício.
Outro ponto que chamou atenção foi a existência de pisos instalados na Delegacia Especializada no Atendimento ao Idoso. Na reportagem de 2024, o empresário afirmou que os materiais teriam saído da franquia sem documentação fiscal e questionou a origem dos produtos.
Na ocasião, Alexandre Bruno teria informado que o material havia sido doado pelo deputado Ricardo Quirino. O parlamentar, por outro lado, negou envolvimento e sua chefia de gabinete afirmou que poderia ter ocorrido um equívoco na informação repassada pelo delegado.
Pedido de prisão contra o empresário
A disputa ganhou um capítulo ainda mais controverso quando, segundo a denúncia divulgada em 2024, Alexandre Bruno teria solicitado a prisão de Tiago do Piso e da esposa dele por suposto estelionato.
O pedido, conforme relatado na época, foi negado pela Justiça. A reportagem também informou que o episódio resultou em questionamentos sobre a atuação do delegado e em pedido para apuração de possível abuso de autoridade.
A defesa de Fabrício e Isabela negou as acusações. Em nota enviada à reportagem, o advogado Guilherme Amaral afirmou que não houve furto de pisos e sustentou que os produtos pertenciam à franquia, e não ao franqueador.
A defesa também acusou Tiago e sua esposa de ameaças e afirmou que existiam investigações em diferentes unidades policiais. Segundo a nota, Alexandre Bruno não teria cometido qualquer crime e teria atuado dentro da legalidade.
Em relação ao deputado Ricardo Quirino, a defesa afirmou que ele não tinha relação com a situação.
Relação anterior entre Quirino e Alexandre Bruno
Documentos oficiais da Assembleia Legislativa de Goiás ajudam a contextualizar a proximidade institucional entre os dois personagens.
Em dezembro de 2023, antes portanto da reportagem de 2024, Alexandre Bruno participou de uma sessão solene na Alego e agradeceu publicamente ao deputado Ricardo Quirino por melhorias realizadas na Delegacia do Idoso.
Segundo registro oficial da Assembleia, o delegado afirmou que, após uma visita à unidade, Quirino teria providenciado um caminhão com pisos, argamassas e tintas, materiais que, segundo o próprio parlamentar, teriam sido pagos por ele.
O episódio é relevante porque posteriormente, na denúncia de 2024, justamente a origem dos pisos instalados na delegacia passou a ser questionada pelo empresário Tiago do Piso.
Agora, uma investigação diferente e muito mais grave
Dois anos depois da denúncia envolvendo a franquia de pisos, Alexandre Bruno aparece novamente em uma investigação, desta vez conduzida pelo Ministério Público de Goiás, relacionada à gestão de cargas apreendidas pela Polícia Civil.
A apuração atual está relacionada ao período em que Alexandre Bruno atuava na Delegacia Estadual de Repressão a Furtos e Roubos de Cargas (Decar).
Segundo o MP-GO, o delegado teria autorizado o armazenamento de mercadorias e veículos apreendidos em depósitos particulares sem respaldo legal ou judicial. A suspeita é de que parte desses bens tenha sido posteriormente retirada dos locais e comercializada de maneira clandestina.
O caso começou a ser investigado após o desaparecimento de uma carga de vergalhões avaliada em cerca de R$ 1,4 milhão, apreendida em 2021 durante a Operação Fogo Amigo.
Na operação, a própria Polícia Civil havia apontado a existência de uma organização criminosa especializada no desvio de cargas de aço e ferro. Na época, Alexandre Bruno era o delegado responsável pela unidade e chegou a explicar publicamente o funcionamento do esquema investigado.
Depósito particular e suspeita de venda clandestina
De acordo com o Ministério Público, os vergalhões apreendidos teriam sido encaminhados para um depósito ligado ao empresário Sílvio Dutra, conhecido como “Carioca”.
Segundo a investigação, ele teria exercido papel importante na guarda e movimentação de mercadorias e veículos apreendidos pela Decar.
A suspeita apresentada pelo MP é de que determinados produtos tenham sido vendidos clandestinamente e que os valores obtidos com essas negociações fossem posteriormente divididos entre envolvidos.
Os investigadores também analisaram conversas e áudios encontrados em aparelhos celulares. Segundo as informações divulgadas, haveria mensagens nas quais o empresário admitiria a venda de mercadorias e até discussões sobre a elaboração de um boletim de ocorrência falso para justificar o desaparecimento de uma carga.
Suposta propina de R$ 200 mil
Um dos pontos mais graves da investigação atual envolve a alegação de que R$ 200 mil em dinheiro vivo teriam sido entregues ao delegado.
Segundo o Ministério Público, um comparsa teria relatado que o dinheiro foi entregue diretamente a Alexandre Bruno e que a quantia teria sido utilizada para a aquisição de um imóvel.
As acusações, entretanto, ainda estão sendo investigadas e não representam uma condenação. Alexandre Bruno nega qualquer participação no esquema e também rejeita ter recebido propina.
Delegado nega envolvimento
Em entrevista à TV Anhanguera, Alexandre Bruno afirmou que as mercadorias eram colocadas em depósitos particulares porque a delegacia não possuía espaço físico suficiente para armazenar todos os produtos apreendidos.
O delegado negou ter conhecimento ou participação em qualquer desvio ocorrido nesses locais.
Ele também afirmou que chegou a solicitar à direção da Polícia Civil a contratação formal de galpões para armazenamento das cargas, mas que o pedido não teria avançado por dificuldades relacionadas à contratação.
As defesas do escrivão e do policial também afirmaram que os investigados estão tranquilos e confiam na Justiça.
Justiça determina afastamento
Diante da gravidade das suspeitas, o 1º Juízo das Garantias de Goiânia determinou o afastamento de Alexandre Bruno, Sílvio Pereira de Macedo e Antônio Gomes de Assis Sobrinho por 90 dias.
Além do afastamento, a decisão determinou o recolhimento de armas, distintivos e carteiras funcionais dos investigados, além da proibição de acesso às repartições policiais e aos sistemas da instituição.
A medida é cautelar e não significa que os investigados tenham sido condenados. O caso ainda será apurado pela Justiça e pelo Ministério Público, com direito à defesa e ao contraditório.
De 2024 a 2026, o que mudou?
O episódio envolvendo os pisos, publicado em 2024, tratava de uma disputa empresarial e de denúncias de supostas irregularidades envolvendo uma franquia, com acusações contra pessoas ligadas ao delegado e questionamentos sobre uma doação de material para uma delegacia.
Já a investigação que resultou no afastamento em 2026 trata de outra apuração, conduzida pelo Ministério Público, envolvendo suposto desvio de cargas apreendidas quando Alexandre Bruno atuava na Decar.
Apesar de serem episódios distintos, o nome do delegado aparece nos dois casos, o que dá ao novo afastamento um peso ainda maior diante do histórico público de questionamentos sobre sua atuação.
Importante: as acusações descritas nesta reportagem são objeto de investigação. Alexandre Bruno, Sílvio Pereira de Macedo e Antônio Gomes de Assis Sobrinho não foram condenados pelos fatos e têm direito à defesa e à presunção de inocência.
Fontes consultadas: reportagens de 2024 do G5News sobre o caso da franquia de pisos; registros oficiais da Assembleia Legislativa de Goiás; informações divulgadas em 2 de setembro de 2026 sobre o afastamento dos policiais e a investigação do MP-GO.




