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Corte de gastos vira desafio para o PT em meio à disputa eleitoral

Auxiliares defendem ajuste fiscal no início de um eventual novo mandato, mas proposta enfrenta resistência dentro do PT e pode afetar a estratégia eleitoral de Lula

PT enfrenta divisão sobre corte de gastos em meio à corrida eleitoral de 2026

Auxiliares de Lula defendem ajuste no início de um eventual quarto mandato, mas proposta provoca resistência dentro do partido e levanta dúvidas sobre a política fiscal

Auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendem que um eventual quarto mandato comece com medidas de contenção de gastos públicos. A estratégia seria aproveitar o capital político dos primeiros meses de governo para promover ajustes nas contas, evitando a adoção de medidas impopulares durante a campanha eleitoral.

A proposta, porém, divide o Partido dos Trabalhadores. Enquanto integrantes de uma ala defendem maior controle das despesas para recuperar a credibilidade fiscal, outros avaliam que cortes poderiam atingir políticas sociais e conquistas consideradas importantes pelo partido.

A estratégia também representa uma mudança em relação ao início do atual mandato. Em 2023, a chamada PEC da Transição permitiu ampliar o espaço para despesas públicas e marcou uma política de expansão dos gastos após a eleição.

Meta é conter crescimento das despesas

De acordo com interlocutores, um eventual programa de ajuste teria como objetivo estabilizar gradualmente a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB) até 2030.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, já mencionou a possibilidade de reduzir o limite de crescimento real das despesas previsto no arcabouço fiscal. Atualmente, o mecanismo permite expansão real dos gastos de até 2,5% ao ano. Uma das alternativas discutidas seria reduzir esse percentual para 1,5%.

A discussão também pode alcançar o salário mínimo, cujo reajuste acima da inflação tem impacto sobre despesas previdenciárias e benefícios vinculados ao piso nacional.

Resistência dentro do PT

A possibilidade de um ajuste mais rígido, no entanto, encontra resistência entre integrantes do partido.

O economista Sérgio Gabrielli, coordenador da campanha de Lula, defende que o equilíbrio fiscal não seja tratado como um objetivo isolado. Na avaliação dele, cortes em salários e benefícios não resolveriam o problema estrutural das contas públicas diante do elevado nível dos juros.

Gabrielli também considera que os pisos constitucionais destinados à saúde e à educação representam conquistas sociais que não deveriam ser comprometidas por uma política de contenção de despesas.

Para o consultor Leonardo Barreto, da Think Policy, a discussão também envolve uma disputa interna pelo comando da política econômica dentro do PT. Segundo ele, diferentes grupos enxergam a questão fiscal de maneiras distintas e tentam influenciar os rumos de um eventual próximo governo.

A analista de Economia Thais Herédia afirma que o principal problema está na dinâmica de crescimento das despesas obrigatórias. Na avaliação dela, alterações pontuais não seriam suficientes para solucionar o desequilíbrio estrutural das contas públicas.

Próximo governo terá pressão sobre as contas

O debate ocorre em meio a projeções que apontam para uma crescente pressão sobre o orçamento federal. O diretor editorial da CNN em Brasília, Daniel Rittner, afirmou que o próximo governo terá de enfrentar uma combinação de dívida elevada e aumento das despesas obrigatórias.

Segundo ele, as projeções não partem apenas do mercado financeiro, mas também de instituições e órgãos responsáveis pelo acompanhamento das contas públicas.

Outro ponto de discussão são as exceções ao arcabouço fiscal. Setores ligados ao governo ainda defendem tratamentos diferenciados para determinadas áreas, como mobilidade urbana e educação em tempo integral.

Críticos da estratégia afirmam que a multiplicação de exceções pode enfraquecer o próprio mecanismo de controle das despesas e dificultar a avaliação da sustentabilidade fiscal.

PT tenta evitar repetição de 2015

Integrantes do entorno de Lula também lembram do episódio envolvendo o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, em 2015. Na época, o governo tentou implementar um programa de ajuste fiscal, mas enfrentou forte resistência dentro do próprio PT e de partidos da base.

Levy deixou o cargo menos de um ano depois de assumir a Fazenda.

O episódio é tratado como um exemplo dos riscos políticos de tentar implementar medidas de austeridade sem o apoio da base governista. Por isso, auxiliares de Lula defendem que qualquer eventual ajuste seja planejado e colocado em prática no início de um novo mandato, quando o governo teria maior margem política para enfrentar resistências.

Disputa econômica também envolve sucessão no PT

Além do debate fiscal, a discussão ganhou um componente político relacionado ao futuro do PT.

Uma das possibilidades levantadas nos bastidores é a de Fernando Haddad assumir a Casa Civil em um eventual quarto mandato de Lula. A mudança poderia fortalecer sua posição dentro do governo e colocá-lo entre os principais nomes para uma eventual sucessão presidencial em 2030.

A divisão, portanto, não envolve apenas o tamanho do ajuste fiscal. Também está relacionada à disputa sobre os rumos econômicos do partido e à formação da próxima geração de lideranças petistas.

Apesar das diferentes correntes internas, interlocutores avaliam que a decisão final sobre a política econômica continuaria concentrada no presidente Lula. A dificuldade estará em conciliar a necessidade de controlar as despesas públicas com a manutenção de programas sociais e compromissos históricos do PT.

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