Novo Anel Viário pode mudar o eixo de crescimento da Grande Goiânia
Obra de 44 quilômetros e R$ 1,1 bilhão promete retirar parte do tráfego das BRs 153 e 060 e pode acelerar a ocupação urbana no leste e nordeste da região metropolitana
Depois de cerca de três décadas de discussões, o projeto de um novo contorno rodoviário da Grande Goiânia avançou para uma etapa decisiva. O governo federal colocou em licitação a construção do Contorno Sudeste/Nordeste, uma rodovia de 44 quilômetros que deverá interligar Goiânia, Aparecida de Goiânia, Senador Canedo e Hidrolândia.
Orçada em aproximadamente R$ 1,1 bilhão, a obra tem como principal objetivo retirar parte do tráfego de passagem das áreas urbanas e reduzir a pressão sobre as BRs 153 e 060. No entanto, além dos impactos na mobilidade, especialistas em urbanismo avaliam que o novo corredor poderá influenciar diretamente a expansão da Grande Goiânia.
A expectativa é que áreas localizadas principalmente nos setores leste e nordeste da região metropolitana ganhem maior atratividade para empreendimentos residenciais, industriais, comerciais e logísticos. O ritmo dessa transformação, porém, dependerá das regras de uso e ocupação do solo, do controle dos acessos à rodovia e da oferta de infraestrutura nos municípios.
O edital nº 38/2026, publicado no Portal Nacional de Contratações Públicas, prevê contratação integrada para a elaboração dos projetos básico e executivo e para a execução da obra. A abertura das propostas está prevista para 29 de setembro, sob responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).
O empreendimento integra o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O Governo de Goiás também participou do desenvolvimento das alternativas de traçado e do anteprojeto por meio da Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes (Goinfra).
Projeto é discutido desde 1996
As primeiras discussões sobre um novo contorno rodoviário para a Região Metropolitana de Goiânia começaram em 1996. O projeto atual, no entanto, é diferente daquele elaborado originalmente, que previa aproximadamente 82 quilômetros.
Com o crescimento acelerado da metrópole, técnicos passaram a estudar novas alternativas de traçado. A proposta de 44 quilômetros foi apresentada publicamente em 2025 e passou a ser estruturada para aliviar principalmente o tráfego da BR-153.
A licitação atual representa uma mudança importante no andamento do projeto, já que reúne em um único contrato a elaboração dos projetos e a execução da obra.
Novo traçado atravessa quatro municípios
De acordo com o Dnit, o novo Anel Viário terá pistas duplicadas ao longo dos 44 quilômetros e fará conexões com Goiânia, Aparecida de Goiânia, Hidrolândia e Senador Canedo.
O projeto prevê ligações com as rodovias estaduais GO-020, GO-010, GO-019 e GO-537, além de aproximadamente 26 quilômetros de interconexões com a malha rodoviária existente.
Também estão previstas 45 estruturas de maior porte, entre elas 35 viadutos e dez pontes, além de 20 bueiros celulares.
A estimativa técnica considera um volume médio diário de 21.844 veículos em 2035. A expectativa é que a nova estrutura retire parte do tráfego de passagem das vias urbanas e facilite a circulação entre diferentes regiões da Grande Goiânia.
Rodovia pode estimular novos empreendimentos
Para especialistas, uma das principais consequências indiretas da obra pode ser a valorização de áreas que atualmente estão mais afastadas dos principais corredores de transporte.
A engenheira civil Marielle Vieira Felix Rocha, coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Estácio Goiás, avalia que grandes obras de infraestrutura podem funcionar como indutoras de novas atividades econômicas.
A maior acessibilidade pode favorecer a instalação de galpões, centros logísticos, indústrias e estabelecimentos comerciais próximos aos acessos da rodovia. A especialista, porém, alerta que a expansão precisa ser acompanhada por investimentos em saneamento, energia, transporte e equipamentos públicos.
Outro ponto de atenção é o controle dos acessos. A multiplicação de entradas diretas para condomínios, empresas e estabelecimentos comerciais pode comprometer a função original da rodovia, que é justamente permitir o deslocamento de passagem sem reproduzir os congestionamentos existentes nas áreas urbanas.
Ocupação em direção a Senador Canedo já acontece
A expansão urbana no eixo leste da Grande Goiânia não é um fenômeno novo. A região de Senador Canedo já registra crescimento associado à expansão da capital e aos corredores da GO-020 e da BR-153.
A urbanista Thaissa Finotti, especialista em Desenho e Planejamento Urbano com Enfoque Ambiental e Direito Urbanístico, avalia que o novo Anel Viário não deve ser visto como responsável pelo surgimento dessa conurbação, mas pode acelerar um processo que já está em andamento.
Com a melhoria da acessibilidade, terrenos próximos ao novo corredor podem se tornar mais valorizados e atrativos para novos empreendimentos. O resultado, entretanto, dependerá das decisões tomadas pelos municípios sobre o uso dessas áreas.
Legislação será determinante
A construção da rodovia, por si só, não significa que toda a região ao redor poderá ser imediatamente ocupada. A possibilidade de implantação de loteamentos, condomínios, empresas e outras atividades depende das legislações municipais.
Planos diretores, zoneamento, perímetros urbanos e regras de parcelamento do solo terão papel importante na definição do que poderá ser construído próximo ao novo corredor.
A arquiteta e urbanista Maria Ester de Souza, doutora em Geografia Urbana e pesquisadora do INCT Observatório das Metrópoles – Núcleo Goiânia, destaca que mudanças nas regras de ocupação podem ampliar significativamente os efeitos territoriais provocados pela nova infraestrutura.
Segundo as especialistas, caso a legislação permita maior ocupação nas áreas próximas ao Anel Viário, a tendência é de aumento do interesse imobiliário e de novos empreendimentos.
Risco de expansão sem infraestrutura
Um dos principais desafios apontados por urbanistas é evitar que a expansão urbana aconteça antes da chegada dos serviços públicos.
O surgimento de novos bairros e loteamentos exige redes de água e esgoto, drenagem, energia elétrica, transporte público, escolas, unidades de saúde, segurança e áreas de lazer.
Sem planejamento integrado, a expansão pode aumentar as distâncias entre moradia, trabalho e serviços, elevando a dependência do transporte individual e os custos para levar infraestrutura às áreas mais afastadas.
Para as especialistas, o cenário ideal é que o crescimento seja acompanhado pela criação de novas centralidades, capazes de aproximar empregos, comércio e serviços das áreas residenciais.
Anel não pode virar uma avenida urbana
Outro ponto de preocupação é o risco de a nova rodovia, com o passar dos anos, ser incorporada ao tecido urbano e assumir características de uma avenida convencional.
A multiplicação de acessos, empreendimentos e ocupações nas margens pode aumentar o tráfego local e reduzir a eficiência do corredor para veículos que apenas atravessam a região metropolitana.
Por isso, urbanistas defendem que o controle dos acessos e o planejamento das áreas próximas sejam definidos antes da consolidação da ocupação.
A proposta é preservar a função regional da rodovia, permitindo que ela retire o tráfego de passagem das áreas urbanas sem criar um novo eixo de congestionamentos no futuro.
Planejamento precisa envolver os municípios
Apesar de ser uma obra federal, os impactos sobre o território serão sentidos principalmente pelos municípios atravessados pelo traçado.
Goiânia, Aparecida de Goiânia, Senador Canedo e Hidrolândia possuem competências próprias para definir regras de uso e ocupação do solo. Ao mesmo tempo, os moradores e trabalhadores circulam diariamente entre essas cidades.
Por isso, especialistas defendem que o planejamento seja feito de forma integrada, considerando mobilidade, habitação, infraestrutura, meio ambiente e desenvolvimento econômico.
A discussão também ocorre em paralelo ao processo de elaboração do Plano de Desenvolvimento Urbano Integrado (PDUI) da Região Metropolitana de Goiânia, que busca estabelecer diretrizes para questões que ultrapassam os limites de cada município.
Uma obra aguardada há décadas
A licitação do Contorno Sudeste/Nordeste representa um novo capítulo de uma discussão iniciada há aproximadamente 30 anos. Ao longo desse período, diferentes propostas foram estudadas e modificadas conforme a Grande Goiânia cresceu.
Agora, com a previsão de uma obra de 44 quilômetros e investimento estimado em R$ 1,1 bilhão, o projeto entra em uma fase mais concreta.
O desafio, segundo especialistas, será fazer com que a nova infraestrutura cumpra sua função de melhorar a mobilidade sem provocar uma expansão urbana desordenada.
Mais do que uma nova estrada, o Anel Viário poderá se tornar um importante elemento de transformação territorial da Grande Goiânia. O impacto definitivo, porém, dependerá das decisões tomadas pelo poder público sobre como as áreas próximas à rodovia serão ocupadas nos próximos anos.




