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Professora trans relata humilhação em formatura após UFG ignorar nome social e é indenizada em R$ 4 mil

Mar Dias Rosa afirma que episódio durante cerimônia de 2022 teve impactos emocionais e considera condenação de R$ 4 mil contra a UFG um precedente para a população trans

Professora trans relata humilhação em formatura e diz que condenação da UFG representa vitória coletiva

Mar Dias Rosa foi chamada pelo nome de registro durante cerimônia de colação de grau, em 2022; Justiça Federal condenou a universidade ao pagamento de R$ 4 mil por danos morais

A atriz e professora Mar Dias Rosa, de 27 anos, relembrou o episódio que viveu durante sua colação de grau na Universidade Federal de Goiás (UFG), em 2022, quando foi chamada pelo nome de registro, apesar de seu nome social já estar cadastrado nos sistemas acadêmicos da instituição.

Em entrevista ao Jornal Opção, neste sábado (15), Mar contou que o constrangimento aconteceu diante de familiares e amigos e teve impactos emocionais que, segundo ela, permaneceram mesmo após a formatura.

“Me senti humilhada, totalmente prostrada, com trauma da universidade. Professores que eu gostava não me deram nenhuma palavra carinhosa, mesmo sabendo meu nome. Minha rede de apoio foram minhas amizades”, relatou.

A Justiça Federal condenou a UFG ao pagamento de R$ 4 mil por danos morais. De acordo com a universidade, a sentença foi proferida em 1º de outubro de 2025 e transitou em julgado em 10 de janeiro de 2026. O pagamento, segundo a instituição, já foi realizado pela União.

Estudante afirma que pediu uso correto do nome

Mar afirmou que, antes da cerimônia, procurou representantes responsáveis pela colação para confirmar que seu nome social seria utilizado durante o evento. Mesmo assim, o nome de registro acabou sendo anunciado.

Segundo a UFG, cerca de dois minutos depois do chamamento incorreto, a equipe responsável pediu desculpas e convidou novamente a estudante ao palco, desta vez utilizando o nome social.

Após o episódio, Mar disse que buscou reuniões com a Reitoria e com representantes da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae). Entre os pedidos estavam uma retratação pública, capacitação dos profissionais envolvidos e atendimento psicológico.

De acordo com ela, o acompanhamento psicológico só foi obtido depois de muita insistência, já após a conclusão do curso, por meio do programa Saudavelmente.

“A colação afetou muito mais o meu psicológico. Depois de brigar muito, consegui atendimento por mais oito meses”, afirmou.

Condenação é vista como precedente

Para Mar, apesar de considerar o valor da indenização insuficiente para reparar o impacto causado pelo episódio, a decisão judicial representa uma conquista para a população trans.

“Fiquei feliz pela condenação da UFG. Triste com o valor, que não repara o dano moral, mas feliz pelo precedente, pela jurisprudência que abre com a vitória trans”, declarou.

Ela contou ainda que já havia perdido outro processo contra um médico que, segundo seu relato, se recusou a utilizar seu nome social. Por isso, considera a decisão contra a universidade uma vitória coletiva.

“Por isso, quando ganhei contra a UFG, foi uma vitória nossa”, afirmou.

Mar voltou à UFG para fazer mestrado

Um ano após a situação, em 2023, Mar ingressou no mestrado em Artes da Cena da própria UFG e se tornou a primeira pessoa trans no programa.

“Me formei mestra no mesmo prédio, na mesma universidade, porque, apesar dos pesares, essa universidade também é minha e eu posso estar nela”, disse.

Para ela, permanecer na instituição também representa uma forma de ressignificar a experiência vivida durante a graduação.

“Estou feliz por poder contar para as pessoas que o que aconteceu foi errado. E comemorar com as minhas, com as pessoas trans. A gente ganhou, nós pessoas trans”, afirmou.

Mudanças no uso do nome social

Mar também afirmou que sua trajetória contribuiu para mudanças institucionais na universidade. Segundo ela, em 2023 passou a ser possível incluir o nome social com flexão de gênero nos diplomas da UFG.

“Isso foi uma luta minha, nossa, trans na UFG. Depois foi veiculado como se a universidade tivesse reconhecido, quando na verdade eu estava protagonizando e não tive respaldo”, declarou.

Ela também citou outras conquistas pessoais relacionadas ao reconhecimento de sua identidade e ao acesso a documentos oficiais.

“Fui a primeira pessoa não binária retificada em Goiás, a primeira a ter uma CNH com nome social. Quantas vezes tive a porta fechada na cara para conseguir isso hoje, ainda em 2026”, afirmou.

UFG afirma manter políticas voltadas à população trans

Em nota, a Universidade Federal de Goiás afirmou que lamenta o ocorrido e que considera prioridade o respeito a cada pessoa e aos seus direitos.

A instituição destacou que desenvolve há mais de uma década políticas de ações afirmativas voltadas à comunidade trans. Entre as medidas citadas estão o uso do nome social em sistemas e documentos oficiais, cotas em cursos de graduação e pós-graduação e bolsas de moradia e assistência para estudantes trans e travestis em situação de vulnerabilidade social.

A universidade também informou manter campanhas e programas de conscientização voltados à visibilidade da população trans e ao combate à transfobia.

Sobre o episódio da colação de grau, a UFG reiterou que houve pedido de desculpas durante a própria cerimônia e que a estudante foi chamada novamente ao palco utilizando o nome social.

“As pessoas podem procurar os direitos delas”

Mar considera importante que a decisão judicial seja divulgada para que outras pessoas que passem por situações semelhantes conheçam seus direitos e possam buscar orientação jurídica.

“Com certeza essa decisão abre precedentes. A difusão dessa informação serve para que as pessoas saibam que elas podem procurar o direito delas. Eu venho lutando e vou continuar lutando por todas nós”, concluiu.

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