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Rússia é acusada de promover ataques de “safári” contra civis na Ucrânia para espalhar medo

**Moradores relatam que drones russos passaram a perseguir veículos e atingir ônibus, enquanto ataques aéreos intensificam o medo e mudam a rotina da população**

Ataques de drones transformam rotina de civis em “safári” na cidade ucraniana de Zaporizhzhia

Moradores relatam medo constante diante de drones russos que passaram a atingir veículos, ônibus e áreas civis com maior frequência

Desde as primeiras semanas da invasão russa em larga escala da Ucrânia, em 2022, as forças de Moscou permanecem posicionadas ao sul de Zaporizhzhia, importante cidade industrial ucraniana que tem cerca de 700 mil habitantes.

A região tem sido alvo frequente de ataques com mísseis e drones. Nos últimos meses, porém, moradores relatam uma intensificação da ofensiva aérea, que tornou ainda mais perigosa a circulação pelas ruas da cidade.

Para descrever a nova realidade, alguns ucranianos passaram a usar a expressão “safári”, em referência aos drones que perseguem e atacam pessoas e veículos.

“Mesmo há seis meses ainda era assustador, claro, e havia ataques. Mas não era assim. Agora virou um verdadeiro ‘safári’”, relatou um morador à Reuters.

Drones passam a perseguir veículos

Os chamados drones FPV (visão em primeira pessoa) são equipamentos pequenos e altamente manobráveis, geralmente controlados por operadores por meio de transmissão de vídeo. Na guerra da Ucrânia, esses drones passaram a ser utilizados com frequência para atingir posições militares e veículos.

Moradores afirmam que a ameaça também passou a fazer parte da rotina da população civil.

Repórteres que estavam em um estabelecimento comercial na cidade precisaram procurar abrigo após ouvirem o característico zumbido de um drone FPV.

Segundo autoridades locais, os ataques têm atingido veículos particulares, grupos de civis e o transporte público, especialmente em áreas do sul de Zaporizhzhia.

O governador da região, Ivan Fedorov, afirmou que a estratégia russa busca aumentar a pressão sobre a população.

“O inimigo está priorizando a criação de uma pressão máxima sobre a população civil”, declarou.

A Rússia nega ter civis como alvo durante a guerra.

Ônibus também são atingidos

A intensificação dos ataques trouxe novos riscos para o sistema de transporte público de Zaporizhzhia.

No distrito de Kosmos, localizado ao sul da cidade, foram instaladas redes de proteção contra drones em alguns trechos das ruas. A medida busca reduzir o risco de ataques contra veículos que circulam pela região.

Motoristas de ônibus que trabalham na área afirmam que a presença dos drones aumentou o medo entre passageiros e profissionais.

“As redes contra drones não vão proteger você dos maiores”, afirmou um dos motoristas, que não quis revelar o nome.

Segundo Fedorov, menos de 5% dos drones FPV lançados contra a região conseguem atravessar as defesas ucranianas. Ainda assim, nos dias de maior intensidade, até dez drones podem causar ferimentos ou danos.

A administração municipal começou a testar sistemas de detecção de drones para motoristas de ônibus e também avalia a utilização de vidros mais resistentes a estilhaços.

De acordo com Volodymyr Sukhachov, diretor do transporte público local, 12 ônibus ou bondes operados pela cidade foram danificados por drones FPV ou explosões de munições maiores neste ano.

Apesar dos ataques, as autoridades afirmam que não pretendem suspender os serviços.

Moradores tentam manter a rotina

Apesar dos constantes alertas de ataques aéreos, áreas centrais de Zaporizhzhia ainda mantêm parte da rotina, com cafés funcionando e trabalhadores circulando.

No entanto, os sinais da guerra estão espalhados pela cidade. Prédios residenciais e comerciais apresentam marcas de explosões, enquanto carros destruídos permanecem em algumas áreas atingidas.

A costureira Ania Syvova, de 34 anos, contou que presenciou um drone atingir um ônibus enquanto voltava para casa.

Ela vive com a filha de seis anos e afirmou que as duas precisaram aprender a conviver com os riscos provocados pela guerra.

“Parece horrível dizer isso, mas nos acostumamos com esta vida. Por enquanto, infelizmente, não temos outra”, disse.

A criança frequenta um jardim de infância instalado em uma estrutura subterrânea, construída para oferecer proteção durante ataques.

Estratégia também é registrada em outras cidades

A utilização de drones contra áreas urbanas não está restrita a Zaporizhzhia.

Em Kharkiv, no nordeste da Ucrânia, o prefeito Ihor Terekhov afirmou que os drones FPV se tornaram um dos principais instrumentos utilizados para provocar medo na população. Segundo ele, 45 ataques foram registrados na cidade no mês passado.

Zaporizhzhia também enfrenta ataques com bombas planadoras, que são lançadas por aeronaves e possuem maior poder destrutivo.

De acordo com Fedorov, a cidade tem sido atingida por esse tipo de armamento entre quatro e seis vezes por dia. As autoridades afirmam que algumas dessas bombas apresentam trajetórias difíceis de interceptar pelos sistemas de defesa aérea.

Em um dos ataques recentes, oito bombas atingiram áreas residenciais em um intervalo de aproximadamente uma hora e meia. Segundo as autoridades ucranianas, uma pessoa morreu e outras 31 ficaram feridas.

Medo se torna parte da vida cotidiana

Os ataques passaram a ocorrer também durante o dia, incluindo horários próximos ao almoço e ao início da noite, alterando a rotina dos moradores.

Tetiana, uma funcionária pública de 38 anos, afirmou que seu bairro foi atingido seis vezes em apenas uma semana.

Mesmo diante do risco, ela decidiu permanecer na cidade por considerar que seu trabalho é necessário para manter serviços públicos em funcionamento.

“Honestamente, eu já estou completamente vazia”, afirmou a moradora diante dos destroços de carros espalhados próximo ao prédio onde vive.

A intensificação dos ataques evidencia como a guerra continua afetando diretamente a população civil, mesmo em cidades onde as forças terrestres russas não conseguiram avançar significativamente. Para os moradores, a ameaça dos drones passou a fazer parte da rotina, transformando deslocamentos comuns em momentos de tensão permanente.

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