Trump muda calendário de vacinação infantil nos EUA e faz alegações sobre autismo sem respaldo científico
Ordem assinada pelo presidente reduz de 17 para 11 o número de vacinas recomendadas de forma universal e gera críticas de especialistas; mudança ocorre durante surto de sarampo no país
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta segunda-feira (10) uma ordem que altera o calendário de vacinação infantil do país. A medida reduz de 17 para 11 o número de vacinas recomendadas de forma universal e passa a restringir a indicação de outras seis a grupos considerados de maior risco ou a decisões tomadas individualmente entre médicos e famílias.
Durante a cerimônia de assinatura, Trump e o secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., fizeram afirmações sobre vacinas e autismo que, segundo especialistas, não possuem respaldo científico.
Trump voltou a associar o aumento dos diagnósticos de autismo à quantidade de vacinas aplicadas atualmente em crianças. A hipótese, no entanto, já foi amplamente estudada e descartada pela comunidade científica.
A mudança ocorre em meio a um surto de sarampo nos Estados Unidos, que já registra mais de 2,4 mil casos confirmados.
Quais vacinas foram afetadas?
Entre os imunizantes que deixaram de ser recomendados de forma universal estão as vacinas contra hepatite B, hepatite A, meningococo B, meningococo ACWY e dengue, além da utilização de anticorpos contra o vírus sincicial respiratório.
Essas proteções passam a ser indicadas principalmente para grupos considerados de maior risco.
Outras vacinas, como as de hepatite A, hepatite B, rotavírus, doença meningocócica, gripe e Covid-19, ficam sujeitas ao que o governo americano chama de “decisão clínica compartilhada”.
Nesse modelo, médico e família avaliam individualmente a necessidade de vacinação.
Especialistas contestam relação entre vacinas e autismo
Durante o anúncio, Trump afirmou que décadas atrás as crianças recebiam uma quantidade menor de vacinas e que, naquela época, as taxas de autismo eram menores.
Especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que essa relação não é sustentada por evidências científicas.
A hipótese de que vacinas poderiam provocar autismo ganhou força após um estudo publicado em 1998 pelo médico britânico Andrew Wakefield, que relacionava a vacina tríplice viral ao transtorno.
O trabalho posteriormente foi considerado fraudulento. A publicação foi retratada, outros autores retiraram seus nomes do estudo e Wakefield perdeu sua licença médica.
Desde então, diferentes pesquisas realizadas com milhões de crianças em vários países não encontraram relação causal entre vacinação e autismo.
Tríplice viral também é alvo de questionamentos
Outra mudança envolve a vacina tríplice viral, conhecida como MMR, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola.
Trump afirmou que a combinação das três vacinas poderia aumentar os riscos à saúde. Kennedy chegou a mencionar uma suposta possibilidade de risco de 5%, mas não apresentou estudo ou fonte científica para sustentar o número.
Especialistas afirmam que não há evidências de que combinar os componentes das três vacinas aumente o risco de morte ou de efeitos adversos graves.
A médica Monica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), destacou que a vacina combinada é utilizada há décadas e possui histórico de segurança.
O infectologista Alexandre Naime Barbosa, da Unesp, também afirmou que não existe argumento científico que indique que a combinação dos antígenos torne a vacina mais perigosa.
Hepatite B e vacinação de recém-nascidos
Trump também questionou a necessidade de aplicar a vacina contra hepatite B logo após o nascimento e defendeu que a imunização ocorresse apenas na adolescência.
Especialistas, porém, explicam que a aplicação nas primeiras horas de vida tem como principal objetivo proteger o bebê contra uma eventual transmissão do vírus pela mãe.
A hepatite B pode ser transmitida durante o parto e também por contato com sangue contaminado. Em crianças pequenas, a infecção pode evoluir para formas crônicas e graves da doença.
Segundo especialistas, a vacinação logo após o nascimento é uma estratégia justamente para reduzir o risco de transmissão e garantir proteção desde os primeiros dias de vida.
Vacinas não sobrecarregam o sistema imunológico
Outro argumento apresentado durante o anúncio foi o de que a quantidade de vacinas aplicadas atualmente poderia provocar uma espécie de “sobrecarga” no sistema imunológico das crianças.
Especialistas afirmam que não existem evidências científicas de que o calendário vacinal provoque esse tipo de sobrecarga.
Desde os primeiros momentos de vida, o organismo infantil entra em contato com uma grande quantidade de microrganismos presentes no ambiente, na alimentação e no próprio corpo.
Além disso, as vacinas modernas utilizam tecnologias que permitem reduzir a quantidade de antígenos necessária para estimular uma resposta imunológica.
Surto de sarampo aumenta preocupação
A alteração do calendário ocorre justamente enquanto os Estados Unidos enfrentam um novo avanço do sarampo.
A doença voltou a circular em diferentes regiões do país em meio à queda da cobertura vacinal e ao aumento da disseminação de informações falsas sobre imunizantes.
O sarampo é altamente contagioso e pode provocar complicações graves, principalmente em crianças pequenas.
Para interromper a circulação do vírus, especialistas apontam que é necessário manter uma cobertura vacinal de aproximadamente 95% da população-alvo com as duas doses.
Impacto também pode chegar ao Brasil
Especialistas alertam que decisões tomadas nos Estados Unidos podem influenciar o debate sobre vacinação em outros países, inclusive no Brasil.
A médica Monica Levi afirmou que parte do discurso antivacina brasileiro acompanha argumentos que circulam nos Estados Unidos.
O Brasil também enfrenta desafios para recuperar as coberturas vacinais. Embora os índices tenham apresentado melhora nos últimos anos, algumas vacinas ainda permanecem abaixo das metas estabelecidas pelas autoridades de saúde.
A preocupação é especialmente grande em relação ao sarampo, que exige cobertura elevada para impedir a transmissão comunitária.
Segundo especialistas, a redução da vacinação pode favorecer o retorno de doenças que haviam sido controladas ou eliminadas em determinadas regiões.
O alerta ocorre em um momento em que o país busca ampliar novamente a adesão às campanhas de imunização e combater a desinformação sobre vacinas.




