Cora, irrigação do Vão do Paranã e BRT entre Luziânia e o Distrito Federal não receberam o financiamento solicitado pelo Estado; Anel Viário de Goiânia pode ser executado por concessionária privada.
O Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) reúne aproximadamente R$ 84 bilhões em investimentos previstos para Goiás, mas parte dos projetos estratégicos enfrenta atrasos, mudanças no modelo de execução ou falta de recursos federais específicos. Entre as demandas apresentadas pelo Governo de Goiás que não receberam o financiamento solicitado estão o Complexo Oncológico de Referência do Estado de Goiás (Cora), a fruticultura irrigada do Vão do Paranã e o BRT entre Luziânia e o Distrito Federal.
Segundo dados da Secretaria Especial do Programa de Aceleração do Crescimento (SEPAC), R$ 47,2 bilhões já haviam sido investidos no estado entre 2023 e 2026, enquanto outros R$ 36,5 bilhões permaneciam programados para etapas posteriores. A carteira reúne cerca de 1,5 mil operações e obras nos 246 municípios goianos, com mais de 500 empreendimentos concluídos.
Os valores, no entanto, incluem diferentes modalidades de investimento, como transferências diretas da União, financiamentos públicos e aportes da iniciativa privada. Por isso, a inclusão de uma obra no programa não significa necessariamente que os recursos já tenham sido liberados ou que a execução esteja prestes a começar.
Em entrevista ao Jornal Opção, o secretário especial adjunto da SEPAC, Márcio Vale, explicou que o programa não estabelece uma cota fixa de recursos para cada estado. A seleção considera as necessidades identificadas pelos ministérios, a capacidade de execução dos municípios e a viabilidade dos empreendimentos.
“O PAC não estabelece uma cota por Estado. Quando nós vamos discutir investimentos em saúde, o Ministério da Saúde tem um mapeamento bastante completo dos vazios de atendimento no país. O município precisa ser capaz de assumir o custeio de alguns desses equipamentos posteriormente”, afirmou.
Projetos prioritários de Goiás ficaram sem o financiamento solicitado
De acordo com a Secretaria de Comunicação do Governo de Goiás, no início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), os governadores foram convidados a apresentar três obras consideradas prioritárias para receber apoio federal.
O estado apresentou pedidos relacionados ao financiamento parcial do Cora, ao projeto de fruticultura irrigada do Vão do Paranã e à implantação do BRT entre Luziânia e o Distrito Federal.
Segundo o governo estadual, nenhum dos três projetos recebeu o financiamento federal solicitado. O Cora foi construído integralmente com recursos do Tesouro Estadual e já está em funcionamento. O projeto de fruticultura irrigada também foi desenvolvido com recursos estaduais, enquanto o BRT entre Luziânia e o Distrito Federal continua em fase de estudos.
A situação do BRT, entretanto, exige uma distinção: o empreendimento consta no planejamento oficial do Novo PAC, com previsão de R$ 1 bilhão, mas está classificado como ação preparatória. Isso significa que ainda depende de etapas preliminares, como estudos de viabilidade, projetos de engenharia e modelagem para execução.
Portanto, a inclusão no programa não representa, por si só, a liberação dos recursos nem o início das obras.
Ministério das Cidades tem carteira de R$ 3,1 bilhões
Dados oficiais encaminhados pelo Ministério das Cidades apontam que a carteira de investimentos em Goiás soma aproximadamente R$ 3,1 bilhões, considerando recursos do Orçamento Geral da União e financiamentos, sem incluir o Minha Casa, Minha Vida.
Desse total, R$ 2,2 bilhões correspondem a propostas selecionadas, R$ 468,8 milhões a propostas enquadradas e R$ 452,8 milhões a obras retomadas de ciclos anteriores.
Atualmente, 37 obras estão em execução, com R$ 763,4 milhões em repasses federais diretos. A execução física média desses empreendimentos é de 17,6%, indicando que parte significativa das intervenções ainda está em estágio inicial.
Entre os setores contemplados estão o esgotamento sanitário, com R$ 384,1 milhões distribuídos em dez contratos, e a drenagem urbana, com R$ 110 milhões em três contratos. Os investimentos buscam ampliar a infraestrutura de saneamento e reduzir problemas como alagamentos e contaminação ambiental.
Já o Minha Casa, Minha Vida concentra uma parcela expressiva dos recursos contabilizados no estado. Segundo Márcio Vale, foram contratadas 180 mil unidades habitacionais em Goiás, das quais 167 mil já haviam sido entregues. O investimento informado pelo secretário para o programa no estado é de R$ 24 bilhões.
Anápolis prevê microterminais e obras contra enchentes
Anápolis também integra a carteira de investimentos, com projetos voltados à mobilidade urbana e à drenagem. Segundo o secretário municipal de Infraestrutura e Mobilidade, Thiago de Sá, a prefeitura apresentou aproximadamente R$ 700 milhões em projetos no ano anterior, e cerca de metade do valor foi contemplada, considerando convênios diretos e operações de crédito com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).
Na área de transporte coletivo, a administração municipal prevê a construção de sete novos microterminais para descentralizar as conexões entre linhas e reduzir a necessidade de deslocamento até um terminal central.
“Sete novos microterminais devem ser construídos para justamente descentralizar e tirar essa demanda de todo mundo que quer se deslocar, ter que ir ao centro para depois ir para outro bairro”, afirmou Thiago de Sá.
A prefeitura também trabalha em projetos para ampliar a estrutura de drenagem e enfrentar os alagamentos recorrentes. A proposta prevê a construção de bacias de retenção em áreas estratégicas, incluindo regiões próximas ao Ribeirão Goiás e ao Rio das Antas.
Segundo o secretário, o município está iniciando o processo licitatório para essas estruturas. As bacias deverão armazenar temporariamente parte da água da chuva, reduzindo o volume que chega aos pontos mais vulneráveis.
Forte Santa Bárbara recebe investimentos em Formosa
Na área de defesa, o Forte Santa Bárbara, em Formosa, recebeu recursos do PAC entre 2013 e 2019 e voltou a ser contemplado pelo Novo PAC de 2024 a 2026.
O complexo reúne estruturas operacionais, logísticas, administrativas e de ensino ligadas ao Sistema de Mísseis e Foguetes do Exército Brasileiro. Entre as instalações já concluídas estão as sedes do Comando de Artilharia do Exército, do 16º Grupo de Mísseis e Foguetes, do Centro de Instrução de Artilharia de Mísseis e Foguetes e do Centro Logístico de Mísseis e Foguetes.
Também foram entregues um paiol de munições, um estande de tiro e estruturas de apoio, como sistemas de tratamento de água, fornecimento de energia e circulação interna.
A próxima etapa prevê a construção do aquartelamento da Base Administrativa e Campo de Instrução de Formosa, com conclusão estimada para o primeiro semestre de 2027. O projeto também inclui novas instalações para a Bateria de Busca de Alvos, equipamentos esportivos e residências destinadas a militares.
Anel Viário de Goiânia pode passar para a iniciativa privada
Outro projeto de impacto para a infraestrutura goiana é o Anel Viário de Goiânia. Inicialmente, a expectativa era que a obra fosse executada diretamente pelo poder público, com recursos federais e participação do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).
O planejamento, porém, mudou após a análise da concessão da BR-060. Segundo Márcio Vale, o governo federal identificou sobreposição entre os investimentos previstos para o contorno da capital e as obrigações relacionadas à concessão da rodovia.
A proposta é incorporar o Anel Viário ao novo edital de concessão da BR-060, transferindo a execução à iniciativa privada.
“A expectativa inicial era fazer o Anel Viário como uma obra pública. Só que há uma concessão da BR-060 e se entendeu que havia uma sobreposição de investimento. O contorno de Goiânia vai ser inserido no novo edital de concessão da rodovia e ele vai ser executado pela iniciativa privada”, explicou.
A alteração muda o modelo de financiamento, contratação e fiscalização da obra. O cronograma passa a depender das condições estabelecidas no edital e no contrato de concessão.
A proposta, no entanto, enfrenta resistência do deputado federal José Nelto (União Brasil). O parlamentar criticou a possibilidade de incluir o empreendimento no leilão da BR-060 e defendeu que a obra continue prevista como intervenção pública, com recursos federais e emendas da bancada goiana.
Nelto afirmou que a concessionária não teria cumprido obrigações anteriores e questionou a capacidade de execução do projeto caso ele seja incorporado ao contrato. O deputado classificou a proposta como um “esquema corrupto” e cobrou atuação da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
A reportagem do Jornal Opção informou que procurou a concessionária responsável pela BR-060 para obter posicionamento e aguardava retorno.
Governo federal aponta atrasos em projetos
Márcio Vale reconheceu que algumas obras indicadas pelo Governo de Goiás enfrentam atrasos e dificuldades para avançar. Segundo ele, a inclusão no planejamento federal não garante que um empreendimento seja executado dentro do prazo inicialmente esperado.
“O governo do Estado de Goiás escolheu algumas obras e algumas delas estão efetivamente muito atrasadas por várias questões. Estruturalmente, nós percebemos dificuldades em locais específicos para dar andamento às providências necessárias”, afirmou.
Entre os fatores que podem interferir no andamento dos projetos estão a elaboração de estudos técnicos, o licenciamento, os processos licitatórios, a disponibilidade de áreas e a capacidade administrativa dos órgãos responsáveis.
A deputada estadual Bia de Lima (PT), por sua vez, atribuiu a inclusão de projetos goianos no Novo PAC à articulação entre prefeituras, parlamentares e órgãos federais. Segundo ela, as demandas municipais foram analisadas pelos ministérios responsáveis para verificar a necessidade e a viabilidade das propostas.
Bia também criticou a divulgação dos investimentos federais e afirmou que algumas obras tiveram o reconhecimento público postergado por razões políticas.
Carteira reúne obras concluídas e projetos em preparação
A carteira do Novo PAC em Goiás inclui empreendimentos em diferentes etapas. Entre as iniciativas apontadas como concluídas estão investimentos no Aeroporto de Goiânia, manutenção de trechos rodoviários pelo DNIT entre 2023 e 2025, a Usina Fotovoltaica de Barro Alto, a linha de transmissão de 500 kV entre Silvânia e Trindade e unidades de radioterapia em Goiânia e Anápolis.
Outros projetos continuam em fase preparatória, como o BRT de Luziânia, estimado em R$ 1 bilhão, a usina de etanol de segunda geração em Jataí, as usinas solares Morada do Sol, em Luziânia, e intervenções no sistema de transmissão de energia.
Também aparecem nessa etapa a construção da ponte sobre o Rio Araguaia, na BR-080, e o projeto de recuperação hidroambiental da Bacia do Rio Meia Ponte.
O panorama mostra que os R$ 84 bilhões previstos para Goiás não correspondem integralmente a recursos já executados. O montante reúne investimentos realizados, obras em andamento, propostas selecionadas, financiamentos e empreendimentos que ainda dependem de etapas técnicas ou de concessões.
Embora o programa alcance os 246 municípios goianos, o avanço das obras varia de acordo com o estágio de cada projeto e o modelo de financiamento. O principal desafio é transformar os valores anunciados e as propostas selecionadas em infraestrutura concluída e serviços efetivamente disponíveis à população.




