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Médico que vendeu a TV Anhanguera para construir hospital ganha destaque por história de empreendedorismo

Francisco Ludovico abriu mão dos negócios de rádio e televisão e reuniu recursos próprios para construir o Santa Genoveva, hospital que marcou a história da medicina em Goiás.

Francisco Ludovico: o médico que vendeu a TV Anhanguera para transformar um sonho em hospital

Em Goiânia dos anos 1960, médico abriu mão dos negócios de rádio e televisão e reuniu recursos para construir o Hospital Santa Genoveva, que se tornou referência em cardiologia e transplantes

Na Goiânia dos anos 1960, o asfalto ainda não chegava ao terreno escolhido por Francisco Ludovico de Almeida Neto para construir um hospital. Determinado a tirar o projeto do papel, o médico vendeu sua participação nos negócios da Rádio e TV Anhanguera ao grupo de O Popular, comandado por Jaime Câmara, por 8 milhões de cruzeiros.

O valor, porém, não foi suficiente para concluir a obra. Para financiar o empreendimento, Francisco precisou vender outros bens, contar com a participação de investidores e recorrer a empréstimos. O esforço resultou na criação do Hospital Santa Genoveva, inaugurado em 1970 e que posteriormente se tornou uma referência médica em Goiás.

O sonho começou na faculdade de medicina

Formado em medicina no Rio de Janeiro, Francisco Ludovico retornou a Goiás em 1951. Segundo relatos do próprio médico, a decisão de permanecer no estado teve influência da mãe, que o incentivou a criar oportunidades para jovens goianos que não tinham condições de estudar medicina fora.

A iniciativa ajudou a dar origem à Faculdade de Medicina de Goiás. Em abril de 1960, o primeiro vestibular reuniu 179 candidatos, dos quais 33 foram aprovados.

Depois de participar da criação da faculdade, Francisco passou a planejar um hospital voltado ao ensino, à pesquisa e ao atendimento médico. A ideia inicial era construir uma estrutura de maior porte, mas o projeto não conseguiu financiamento público.

Diante da dificuldade, o médico reduziu a proposta e criou, em 1964, a Clínica Santa Genoveva, que posteriormente daria origem ao hospital.

A venda da Rádio e TV Anhanguera

Francisco Ludovico entrou no setor de comunicação em 1958, quando adquiriu a Rádio Anhanguera. Posteriormente, também participou do negócio de televisão.

Após as eleições de 1962, o médico procurou Jaime Câmara e propôs a venda dos negócios de rádio e televisão. Segundo relato de Francisco, a negociação foi concluída depois de 1964 e rendeu 8 milhões de cruzeiros, dinheiro utilizado para dar início à construção do hospital.

A TV Anhanguera havia iniciado suas transmissões em 24 de outubro de 1963, durante as comemorações do aniversário de Goiânia.

Documentos históricos, porém, indicam que a empresa de televisão possuía uma estrutura societária própria. Por isso, a formulação mais precisa é que Francisco vendeu sua participação nos negócios de rádio e televisão, e não uma concessão registrada pessoalmente em seu nome.

Os 8 milhões não foram suficientes

O financiamento do hospital exigiu muito mais recursos do que os obtidos com a venda dos veículos de comunicação.

Uma das primeiras iniciativas reuniu 720 pessoas, que compraram participações de US$ 400, parceladas em 30 meses. A inflação, entretanto, reduziu o poder de compra do dinheiro arrecadado e dificultou a execução do projeto.

Francisco vendeu ainda um armazém por 27 milhões de cruzeiros. O pai do médico também negociou duas fazendas da família para ajudar no pagamento das dívidas.

Uma das propriedades, localizada em Nova Veneza, rendeu 1,2 milhão de cruzeiros. O dinheiro foi usado para quitar compromissos bancários e comprar equipamentos para o hospital.

O terreno escolhido ficava no Setor Santa Genoveva e tinha 123 mil metros quadrados. Na época, a pavimentação da cidade terminava antes de chegar ao local.

O projeto arquitetônico ficou a cargo de Jarbas Karman, que desenvolveu uma estrutura modular capaz de receber novas alas conforme o hospital crescesse.

Quando os primeiros atendimentos começaram, em março de 1970, a unidade contava com apenas 20 apartamentos e cinco médicos.

Hospital virou referência em cardiologia

Ao longo das décadas seguintes, o Santa Genoveva cresceu e se transformou em uma das principais instituições hospitalares de Goiás.

A unidade chegou a contar com 150 leitos, 20 leitos de UTI, mais de 200 médicos e aproximadamente 300 funcionários.

O hospital também ganhou destaque na área de cardiologia. Em 1970, realizou a primeira cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea de Goiás. Quatro anos depois, implantou o serviço de hemodinâmica.

Em 1992, o Santa Genoveva entrou para a história da medicina goiana ao sediar o primeiro transplante de coração realizado no estado, conduzido pela equipe do médico Aleksander Dobrianskyj.

Do sucesso ao encerramento das atividades

Apesar da trajetória de décadas, o hospital enfrentou dificuldades financeiras e entrou em recuperação judicial em dezembro de 2016.

Os atendimentos foram encerrados em 2017. Posteriormente, o grupo mantenedor teve a falência decretada pela Justiça, em 2019.

O patrimônio do hospital passou a ser alvo de disputas e tentativas de venda. Durante a pandemia de Covid-19, em 2020, o prédio chegou a ser disponibilizado ao governo de Goiás, mas a necessidade de reformas impediu a retomada das atividades.

Em 2026, o imóvel voltou a ser notícia após denúncias de abandono e problemas de manutenção. O complexo também foi levado a leilão por R$ 28,27 milhões, valor correspondente a 61,7% da dívida apontada no processo.

A história de Francisco Ludovico, porém, permanece ligada à construção da medicina e da saúde em Goiás. O médico que ajudou a criar uma faculdade de medicina e abriu mão de negócios de comunicação para financiar um hospital deixou como legado uma instituição que, durante décadas, esteve entre as referências da assistência médica no estado.

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