Autos da Operação Mercancia Torpe apontam que Hamilton Filho teria sido mencionado como mandante de cobranças ilegais feitas por intermediária a pacientes do SUS
Uma investigação da Polícia Civil de Goiás começa a expor um possível esquema de intermediação ilegal de vagas na rede pública de saúde, com cobrança de valores para agilizar atendimentos e procedimentos. Documentos da Operação Mercancia Torpe, aos quais a reportagem teve acesso, citam o deputado estadual Hamilton Filho, do MDB de Anápolis, como figura mencionada nos depoimentos colhidos ao longo das apurações.
De acordo com os autos, uma mulher identificada como Odete é apontada como responsável por realizar cobranças de pacientes em troca de encaminhamentos para unidades hospitalares, como o Hospital Geral de Goiânia (HGG). Em um dos relatos presentes no processo, o valor exigido para viabilizar o acesso ao atendimento teria chegado a R$ 3 mil. Segundo os depoimentos, Odete atuaria sob orientação do parlamentar, o que ainda é objeto de investigação.
A apuração indica que o esquema investigado pode ter ramificações em diferentes municípios goianos, como Novo Gama, Buriti de Goiás, Cabeceiras e Mimoso de Goiás, além de possíveis conexões com agentes políticos locais. Há também registros de tentativas de acesso privilegiado a sistemas de regulação da saúde pública, inclusive com aquisição de credenciais e utilização de autorizações vinculadas a secretarias municipais.
Em Aparecida de Goiânia, por exemplo, surgem indícios de movimentações em unidades de saúde com possível favorecimento em filas de exames e procedimentos. Em outra frente, um ex-prefeito teria sido procurado para participar do esquema, mas recusou envolvimento.
Os autos ainda mencionam a atuação de intermediários que buscavam facilitar cirurgias e exames por meio de contatos políticos, além de relatos sobre pressões internas e disputas por influência dentro da estrutura do sistema público de saúde. Conversas obtidas pela investigação também indicam pedidos frequentes de procedimentos fora dos trâmites regulares.
A Polícia Civil segue analisando o material apreendido e os depoimentos colhidos para aprofundar a apuração e identificar todos os envolvidos. Até o momento, não há condenações, e os citados têm direito à ampla defesa.
O caso levanta suspeitas sobre um possível esquema estruturado para beneficiar pacientes que pagam por acesso mais rápido ao sistema público, em detrimento de quem aguarda na fila regular do SUS.
A Operação Mercancia Torpe continua em andamento, e novas informações podem surgir a qualquer momento. A reportagem seguirá acompanhando o caso e trazendo novos detalhes sobre o que pode se tornar um dos maiores escândalos recentes da saúde pública em Goiás. Enquanto isso, permanece o contraste que revolta a população: pacientes enfrentam longas filas por atendimento, enquanto há suspeitas de que interesses políticos e financeiros estejam por trás de facilidades ilegais.


