Convulsões durante a menstruação levam médicos a suspeitar de endometriose cerebral em mulher de 48 anos
Uma mulher de 48 anos apresentou crises epilépticas recorrentes exclusivamente durante a menstruação, levando médicos a investigar uma possível endometriose cerebral. O caso, acompanhado por especialistas na Romênia, revelou uma lesão no hipocampo direito, região do cérebro relacionada à memória. Após o início do tratamento hormonal, os sintomas neurológicos desapareceram. O relato foi publicado em 11 de setembro no periódico científico Journal of Clinical Medicine.
As crises começaram quando a paciente tinha 41 anos e envolviam redução ou perda da consciência, convulsões, olhar fixo e confusão após os episódios. Ela também relatava dificuldades para se lembrar de acontecimentos recentes, embora os testes realizados durante a investigação não tenham identificado alterações significativas.
Diário menstrual ajudou na investigação
Depois da primeira consulta com um neurologista, a mulher passou seis meses registrando as datas das crises e dos períodos menstruais. O acompanhamento revelou que os episódios aconteciam exclusivamente durante o sangramento, uma informação importante para direcionar a investigação médica.
Uma ressonância magnética realizada em 2019 identificou uma lesão no hipocampo direito. Inicialmente, os médicos consideraram diferentes hipóteses, incluindo alterações na formação do tecido cerebral, infecção e tumor.
A paciente recebeu medicamentos para controlar a epilepsia, mas as crises continuaram mesmo após mudanças no tratamento. Em 2020, um novo exame identificou uma área de 11 por 10 milímetros com captação de contraste e características que poderiam indicar a presença de sangue na lesão.
A combinação dos resultados dos exames com a relação entre as crises e a menstruação levou a equipe médica a considerar a possibilidade de endometriose cerebral.
Apesar da suspeita, a paciente não apresentava sintomas típicos de endometriose pélvica, como cólicas menstruais intensas, dor durante as relações sexuais ou dor pélvica cíclica.
O que é endometriose cerebral?
A endometriose é uma doença inflamatória crônica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao revestimento interno do útero fora da cavidade uterina. A condição afeta principalmente a região pélvica, mas pode atingir outros órgãos. O comprometimento do sistema nervoso central é considerado extremamente raro.
No caso relatado, a localização da lesão e a associação das crises com o ciclo menstrual levantaram a hipótese de que o tecido pudesse apresentar atividade influenciada pelas variações hormonais.
Tratamento hormonal foi associado ao desaparecimento dos sintomas
Em 2021, a paciente começou a utilizar desogestrel e dienogeste, medicamentos da classe dos progestagênios, que atuam de maneira semelhante à progesterona e são utilizados no tratamento da endometriose.
O medicamento contra a epilepsia foi mantido durante os três primeiros meses da terapia hormonal e, posteriormente, suspenso. Segundo o relato médico, a mulher apresentou desaparecimento completo dos sintomas neurológicos.
A paciente teve sua última menstruação em setembro de 2025 e, depois disso, interrompeu também o tratamento hormonal. Uma ressonância magnética realizada em março de 2026 mostrou uma regressão importante da lesão. No acompanhamento de abril, ela permanecia sem sintomas e não utilizava mais os medicamentos hormonais ou antiepilépticos.
Diagnóstico não foi confirmado por biópsia
Apesar da evolução favorável, o diagnóstico de endometriose cerebral permaneceu presumido. Os médicos não realizaram uma biópsia para analisar o tecido da lesão, pois a alteração estava localizada em uma região importante para a memória, e a coleta poderia representar riscos à paciente.
Os autores do estudo destacaram que a possibilidade de endometriose cerebral deve ser considerada na investigação de mulheres que apresentam crises neurológicas associadas à menstruação e lesões cerebrais sem causa esclarecida, mesmo quando não existem sintomas típicos de endometriose pélvica.
O caso chama a atenção para a importância de investigar a relação entre o ciclo menstrual e sintomas neurológicos recorrentes. No entanto, por se tratar de um relato individual, os resultados não comprovam que a endometriose tenha sido a causa definitiva das crises nem que o tratamento hormonal produza o mesmo efeito em outras pacientes.v




