Debate da Globo: Lula e Flávio trocam acusações sobre bets, corrupção e segurança pública
O último debate entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), realizado pela TV Globo na sexta-feira (23), foi marcado por ataques pessoais, acusações envolvendo investigações e discussões sobre economia, segurança pública e políticas ambientais. O confronto ocorreu dois dias antes do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo (25).
Um dos embates envolveu a responsabilidade pela expansão das apostas esportivas on-line, conhecidas como bets, e de jogos como o Tigrinho. Flávio acusou Lula de ter permitido a expansão desse mercado e de tentar reverter a situação às vésperas da eleição. O presidente rebateu, atribuindo a responsabilidade ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
As apostas de quota fixa foram autorizadas por lei em dezembro de 2018, durante o governo de Michel Temer, abrindo caminho para a regulamentação desse segmento no país.
Acusações sobre Daniel Vorcaro e Willer Tomaz
A relação dos candidatos com pessoas envolvidas em investigações também marcou o confronto. Flávio questionou Lula sobre uma suposta garrafa de uísque avaliada em cerca de R$ 500 mil que, segundo reportagem da revista Veja, teria sido presenteada ao presidente pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Lula afirmou anteriormente, em entrevista à TV Band, não saber se recebeu o presente. Durante o debate, rebateu as acusações e mencionou a relação de Flávio com Vorcaro no financiamento do filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro.
Segundo as informações apresentadas no debate, Flávio negociou diretamente com o banqueiro um contrato de aproximadamente R$ 134 milhões para financiar o filme. O senador descreveu a relação como uma negociação entre um investidor e uma produção privada.
Paralelamente, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes determinou, na sexta-feira (23), a quebra dos sigilos bancário, fiscal e cambial do advogado Willer Tomaz e de empresas ligadas a ele. A decisão também incluiu o cancelamento do passaporte e o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens, conforme informações divulgadas pela imprensa.
As medidas fazem parte de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Tomaz e Flávio Bolsonaro. As suspeitas devem ser tratadas como alegações sob investigação, e não como comprovação de culpa.
Fala sobre os “nove dedos” provoca reação de Lula
Outro momento de repercussão ocorreu quando Flávio fez referência aos nove dedos de Lula ao criticar o salário mínimo. O presidente perdeu o dedo mindinho da mão esquerda em um acidente de trabalho quando tinha 17 anos.
Lula reagiu à declaração e exigiu um pedido de desculpas. Flávio respondeu: “Lula, se eu te ofendi, porque eu te chamei de nove dedos, eu peço desculpas. De verdade, não queria te ofender”.
Em outro momento, o senador recebeu direito de resposta após Lula voltar a chamá-lo de “miliciano”. Flávio negou ter relação com milícias e prometeu, caso eleito, classificá-las como organizações narcoterroristas e recuperar territórios dominados por criminosos.
Campanhas repercutem falas após o debate
Depois do confronto, o deputado federal André Janones (Rede-MG), ligado à mobilização digital da campanha de Lula, participou de uma transmissão ao vivo no canal do presidente no YouTube. A iniciativa, batizada de “Live da Virada”, reuniu políticos, artistas e influenciadores e tinha a proposta de mobilizar apoiadores nas redes sociais.
Janones elogiou o desempenho de Lula e afirmou que o presidente havia se saído melhor no confronto. A avaliação representa a opinião do deputado, que atua na campanha petista.
Do outro lado, aliados de Flávio Bolsonaro, incluindo o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), divulgaram trechos do debate em que Lula falou sobre a criação de um Ministério da Segurança Pública e usou a expressão “acabar com a polícia”. Os apoiadores do senador repercutiram a fala como um possível deslize do presidente.
Segurança pública e meio ambiente entram na discussão
Questionado pela jornalista Renata Lo Prete sobre o combate ao desmatamento, Flávio afirmou que pretende zerar o desmatamento ilegal até 2029. O senador defendeu a participação das Forças Armadas no combate aos crimes ambientais na Amazônia e disse que órgãos como Ibama e ICMBio devem atuar, segundo ele, sem motivação ideológica e dentro da lei.
Nas considerações finais, Flávio prometeu trabalhar para recuperar o poder de compra da população e melhorar a segurança nas ruas. Lula, por sua vez, destacou sua trajetória política e pediu votos, afirmando que a eleição seria decisiva para a democracia brasileira.
Após o debate, os dois candidatos também concederam entrevistas à jornalista Renata Lo Prete. Lula falou sobre a autonomia do Banco Central e declarou confiar no atual presidente da instituição, Gabriel Galípolo. Flávio voltou a defender sua proposta de governo voltada ao futuro e criticou a gestão petista.
Com a votação marcada para domingo (25), o debate da Globo foi a última oportunidade de confronto direto entre os candidatos antes do segundo turno. As campanhas passaram a repercutir os momentos considerados favoráveis por seus apoiadores, enquanto a disputa seguia concentrada na conquista dos eleitores indecisos.




