Eleição em Israel pode influenciar negociações para encerrar a guerra no Líbano
Disputa pelo Parlamento israelense coloca os conflitos no Oriente Médio no centro da campanha; especialistas avaliam que a pressão pelo desarmamento do Hezbollah deve continuar mesmo se Benjamin Netanyahu deixar o poder
Os conflitos no Oriente Médio estão entre os principais temas da campanha eleitoral em Israel. A votação para o Parlamento, conhecido como Knesset, está marcada para 27 de outubro e poderá definir o futuro político do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, além de influenciar os rumos das negociações para encerrar as hostilidades no Líbano.

O governo de Netanyahu sustenta que as operações militares foram necessárias para garantir a segurança de Israel. Já a oposição critica os resultados das ações e argumenta que os objetivos estabelecidos não foram plenamente alcançados, apesar dos custos humanos e dos impactos para o país.
Um dos principais pontos de tensão é o conflito com o Hezbollah, grupo armado que atua no Líbano. A ofensiva israelense incluiu ataques aéreos que deixaram milhares de mortos e avanços terrestres em território libanês, com a ocupação de áreas próximas à fronteira.
Um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos reduziu a intensidade dos combates, mas não resultou em um acordo definitivo para encerrar o conflito. Israel exige o desarmamento completo do Hezbollah, enquanto o grupo rejeita entregar suas armas e cobra a retirada integral das forças israelenses do território libanês.
Nesse cenário, a eleição israelense é acompanhada pela comunidade internacional, que busca entender se uma eventual mudança de governo poderá alterar as condições das negociações.
Mudança de governo não deve alterar principais objetivos de Israel
Para Samuel Feldberg, doutor em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador da Universidade de Tel Aviv, uma eventual vitória da oposição não deve provocar mudanças profundas na política externa israelense em relação ao Líbano.
Segundo o especialista, alguns dos principais nomes da oposição têm experiência militar e atuação na área de segurança. Entre eles está Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel. Outro nome relevante é Avigdor Lieberman, que já ocupou o cargo de ministro da Defesa.
Feldberg avalia que as negociações com o governo libanês devem continuar independentemente de quem assumir o comando do governo israelense. A pressão para limitar a atuação militar do Hezbollah também deve permanecer.
“As negociações com o governo do Líbano provavelmente vão continuar, mesmo se houver uma alternância de governo. E as demandas em relação à pressão sobre o Hezbollah com certeza vão continuar, mesmo que o governo não seja esse de Netanyahu”, afirmou o pesquisador.
Desarmamento do Hezbollah deve continuar no centro das negociações
Karina Calandrin, professora de Relações Internacionais do Ibmec-SP, também avalia que a eleição dificilmente eliminará a pressão interna em Israel pelo desarmamento do Hezbollah.
Para a especialista, uma eventual mudança de governo pode alterar a forma como as negociações serão conduzidas e o grau de disposição para buscar uma solução diplomática. No entanto, a preocupação israelense com a capacidade militar do grupo libanês deve permanecer.
“A eleição pode mudar os instrumentos e o grau de disposição para negociar, mas provavelmente não eliminará o consenso israelense de que o Hezbollah não pode reconstruir no sul do Líbano a capacidade militar que possuía antes dessas guerras”, analisou Calandrin.
A avaliação indica que, mesmo com uma possível alternância de poder, o desarmamento do Hezbollah deve continuar sendo uma das principais exigências de Israel para qualquer acordo duradouro.
Pesquisa aponta insatisfação com resultados da guerra
Uma pesquisa realizada em junho pela Universidade Hebraica de Jerusalém, em colaboração com o Instituto Agam, indicou que uma parcela expressiva da população israelense considerava que os objetivos militares não haviam sido alcançados.
Segundo o levantamento, apenas 12,2% dos entrevistados acreditavam que Israel havia atingido a maioria das metas associadas à ideia de “vitória total”, incluindo a eliminação da ameaça representada pelo Hezbollah no Líbano.
Outros 61,3% afirmaram que esses objetivos não haviam sido alcançados “de forma alguma”, enquanto 26,5% avaliaram que Israel havia atingido apenas parte das metas.
Os resultados ajudam a dimensionar o desafio político enfrentado pelo governo e a importância dos temas de segurança na disputa eleitoral.
Acordo de paz é possível, mas enfrenta obstáculos
João Miragaya, assessor do Instituto Brasil-Israel e mestre em História pela Universidade de Tel Aviv, considera possível que um novo governo israelense tente negociar com o governo libanês um acordo que inclua o desarmamento do Hezbollah e abra caminho para a paz.
O especialista, no entanto, ressalta que o processo seria complexo, especialmente diante da resistência do grupo libanês a abrir mão de sua capacidade militar.
Nesse contexto, o resultado da eleição poderá influenciar o estilo de negociação e as estratégias adotadas por Israel, mas não representa, por si só, uma garantia de avanço nas conversas.
O principal desafio continuará sendo conciliar as exigências israelenses de segurança com as demandas libanesas pela retirada das tropas e a resistência do Hezbollah ao desarmamento. Sem um entendimento entre as partes, o cessar-fogo poderá continuar sendo apenas uma interrupção dos combates, sem assegurar o fim definitivo da guerra.




