Cristália investe até R$ 150 milhões em vacina contra o tabagismo
Projeto ainda está em fase inicial e busca desenvolver uma vacina capaz de fazer o sistema imunológico capturar a nicotina antes que ela chegue ao cérebro
O Laboratório Cristália está investindo até R$ 150 milhões no desenvolvimento de uma vacina experimental contra o tabagismo. O projeto ainda está em fase de Early Discovery, etapa inicial da pesquisa científica destinada à seleção de protótipos e à avaliação da eficácia em modelos experimentais.
O estudo é conduzido por pesquisadores do Centro de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação do Cristália e faz parte de uma plataforma voltada ao desenvolvimento de tecnologias capazes de combater a dependência química.
A proposta da vacina é estimular o sistema imunológico a reconhecer e capturar a nicotina ainda na corrente sanguínea, reduzindo a quantidade da substância que consegue chegar ao cérebro. Com isso, a expectativa dos pesquisadores é diminuir a sensação de prazer associada ao consumo do cigarro e, consequentemente, ajudar a evitar recaídas.
Como a vacina deve funcionar
De acordo com o laboratório, a molécula da nicotina é pequena demais para provocar, sozinha, uma resposta significativa do sistema imunológico. Por isso, os pesquisadores desenvolveram uma estratégia em que a substância é associada a uma estrutura capaz de ser reconhecida pelas defesas do organismo.
Esse complexo estimula a produção de anticorpos específicos contra a nicotina. Na corrente sanguínea, esses anticorpos podem se ligar à substância e dificultar sua chegada ao cérebro.
Até o momento, a candidata vacinal foi testada apenas em modelos animais. Segundo o Cristália, os antígenos sintéticos utilizados nos experimentos, produzidos pela Farmoquímica Oncológica, conseguiram induzir a produção de anticorpos específicos.
Ainda conforme a empresa, em um modelo experimental de desafio, a candidata apresentou capacidade de impedir o desenvolvimento da dependência química nos animais. Também está em andamento uma avaliação da resposta imunológica provocada pela vacina.
Pesquisa ainda está em fase pré-clínica
Apesar dos resultados iniciais, a vacina ainda está distante de ser disponibilizada para uso em seres humanos. O projeto precisa passar por diversas etapas de pesquisa antes de qualquer eventual pedido de registro.
O Cristália informou que ainda serão necessários estudos pré-clínicos para avaliar eficácia e segurança, além do desenvolvimento farmacotécnico e analítico, aumento da escala de produção e, posteriormente, estudos clínicos em humanos.
Somente após a conclusão dessas etapas poderá ser avaliada a possibilidade de solicitar o registro do produto junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Vacina pode ajudar a prevenir recaídas
Segundo o fundador e presidente do conselho diretivo do Cristália, Ogari Pacheco, a intenção não é necessariamente substituir os tratamentos já existentes contra o tabagismo, mas fazer com que a vacina seja utilizada como uma ferramenta complementar, especialmente durante a fase de manutenção da abstinência.
A principal aposta do projeto está justamente na prevenção das recaídas. A nicotina estimula receptores no cérebro e favorece a liberação de dopamina, ativando o chamado sistema de recompensa. Esse mecanismo está relacionado à sensação de prazer e ao reforço do consumo da substância.
A estratégia da vacina seria interromper esse processo ao reduzir a quantidade de nicotina capaz de alcançar o cérebro.
Projeto começou a ser estruturado em 2024
O projeto surgiu a partir de uma plataforma anti-drogas que o Cristália começou a estruturar em 2024. A etapa relacionada ao Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) está sob responsabilidade da unidade Farmoquímica Oncológica da empresa, localizada em Itapira, no interior de São Paulo.
A formulação e o envase da futura vacina, caso o desenvolvimento avance para essas etapas, deverão ser realizados em uma das unidades farmacêuticas do laboratório no complexo industrial de Itapira.
Paralelamente, o Cristália informou que está reunindo os dados iniciais sobre a estrutura química e a eficácia da candidata para preparar um pedido de patente. A publicação científica dos resultados deverá ocorrer após o depósito da patente.
Por enquanto, portanto, a vacina permanece uma candidata experimental, sem previsão de disponibilidade para pacientes. Os próximos resultados dos estudos pré-clínicos serão fundamentais para determinar se a tecnologia poderá avançar para os testes em humanos.




