O cenário parecia perfeito para um discurso político de impacto: a população de Pires do Rio reunida, autoridades presentes, e um palco montado para o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, discursar sobre os avanços de seu governo. Porém, o que se viu foi um espetáculo desastroso de arrogância e despreparo diante de uma grave denúncia de possível superfaturamento em obras.
O protagonismo não veio de Caiado, mas do prefeito de Pires do Rio, Hugo do Laticínios, que usou o microfone para questionar o escandaloso custo de R$ 70 milhões para 12,4 km de rodovia construída pela Goinfra — valor médio de R$ 6 milhões por quilômetro, enquanto a média regional gira em torno de R$ 2 milhões/km. Chegou ao evento munido de documentos que sustentavam a denúncia e, corajosamente, os exibiu diante da plateia e do presidente da Goinfra, Pedro Salles, também presente.
A resposta de Caiado? Um gesto autoritário e desconfortável de quem pareceu mais preocupado em calar a denúncia do que esclarecê-la. Após recusar os documentos, o governador retrucou com tom agressivo, afirmando: “Quem está falando aqui é o governador do Estado”.
Esse comportamento autoritário não só desrespeitou o prefeito e os moradores de Pires do Rio, mas também expôs um traço perigoso em um governo que, diante de questionamentos legítimos, opta por intimidação e truculência ao invés de transparência. O papel de um gestor público, especialmente aquele que demonstra aspirações presidenciais, é estar à altura das críticas, promovendo diálogo e oferecendo respostas claras à população, e não recuar para uma postura defensiva e grosseira.
Mais grave ainda foi o fato de Caiado ter delegado o recebimento da denúncia a “um delegado seu”, como se o Estado fosse sua propriedade privada. É importante ressaltar que a análise de suspeitas como essa é competência do Ministério Público e não de “subordinados” do governador.
Se a denúncia é grave — e parece ser, considerando os números apresentados —, quem deveria as explicações à sociedade é o presidente da Goinfra, Pedro Salles, responsável pela obra. No entanto, o silêncio acusatório de ambos, misturado ao destempero do governador, apenas levanta mais dúvidas sobre a lisura do processo.
O que aconteceu em Pires do Rio não pode ser ignorado. É preciso que haja uma apuração rigorosa dos fatos e que os responsáveis respondam por qualquer irregularidade. Não cabe à democracia o autoritarismo de quem tenta calar a verdade.
Para Caiado, aspirante à Presidência da República, comportamentos como este não pegam bem. Num país onde a população exige cada vez mais transparência e respeito dos líderes políticos, a arrogância perde espaço. Afinal, um palanque é lugar para prestar contas — e jamais para calar opositores.
Nosso sistema democrático não funciona com lideranças que adotam a prepotência como método de defesa. Ronaldo Caiado não apenas deve desculpas à população de Pires do Rio e ao prefeito Hugo do Laticínios, como também deve explicações claras sobre o caso. Afinal, se a verdade insiste em subir ao palanque, só resta enfrentá-la com honestidade.



