Em voto na retomada do caso que apura o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, ministra destaca impacto do crime, vulnerabilidade das mulheres e cobra respostas efetivas do Estado.
Durante a retomada do julgamento na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), a ministra Cármen Lúcia fez um dos discursos mais marcantes do processo ao votar no caso que investiga o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, mortos em março de 2018, no Rio de Janeiro.
Em sua manifestação, a ministra questionou até quando o país permitirá que crimes dessa natureza se repitam. “Quantas ‘Marielles’ o Brasil permitirá sejam assassinadas até que se ressuscite a ideia de Justiça?”, indagou, em um pronunciamento que reforçou a dimensão simbólica e social do caso. Ela também citou o impacto para as famílias das vítimas, mencionando o sofrimento de quem ficou órfão e destacando que o Estado de Direito não pode ser tratado como retórica.
Cármen Lúcia votou após o relator, o ministro Alexandre de Moraes, que entendeu pela condenação dos irmãos Brazão, e do ministro Cristiano Zanin, que acompanhou integralmente o relator. O caso investiga a suposta atuação de mandantes e executores do crime, que também envolve denúncias apresentadas pela Procuradoria-Geral da República.
No voto, a ministra destacou ainda o impacto moral do assassinato e criticou a desumanização presente na execução. Ela afirmou que o processo lhe causa profundo desconforto diante da gravidade dos fatos, ressaltando que a violência atingiu não apenas as vítimas, mas toda a sociedade brasileira. “Essa rajada de metralhadora estilhaçou não apenas corpos, feriu o Brasil”, afirmou.
Entre os acusados apontados pela investigação estão o conselheiro Domingos Brazão e o deputado federal Chiquinho Brazão, além de integrantes ligados à suposta organização criminosa, como Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, e outros denunciados por participação no planejamento e acompanhamento do crime. Segundo a acusação, o homicídio estaria relacionado à atuação política de Marielle Franco e a interesses ligados à regularização de áreas no Rio de Janeiro.
Ao longo de seu voto, Cármen Lúcia também abordou a vulnerabilidade das mulheres na sociedade e no exercício de cargos públicos, reforçando que a violência de gênero se manifesta de diferentes formas — física, moral e profissional. Para a ministra, o julgamento representa uma resposta institucional necessária, ainda que insuficiente diante da dimensão da perda.
O caso segue em análise na Corte, em um dos processos mais emblemáticos da história recente do Judiciário brasileiro, com forte repercussão nacional e internacional.



