Declaração de Elias Cardoso, da Assembleia de Deus Ministério de Perus, após desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem a Lula, provoca reação de líderes religiosos e defensores do Estado laico.
Uma declaração feita pelo pastor Elias Cardoso, líder da Assembleia de Deus Ministério de Perus, durante culto na última segunda-feira (16), gerou forte repercussão nas redes sociais e no meio religioso. Ao comentar o desfile da Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua estreia na elite do Carnaval carioca, o pastor afirmou que aqueles que “zombaram da fé” poderiam enfrentar “câncer na garganta”.
A fala ocorreu um dia após a apresentação da escola no Sambódromo do Rio de Janeiro. Segundo Cardoso, a encenação teria “tripudiado” sobre a fé evangélica. Em tom de advertência espiritual, declarou: “A hora que esses homens estiverem com câncer na garganta, ele vai lembrar com quem ele mexeu”. Embora tenha afirmado que não haveria retaliação judicial ou física, sustentou que a resposta viria por meio da oração e da “justiça divina”, evocando o que chamou de “Supremo Tribunal Celestial”.
A declaração foi amplamente criticada por internautas, juristas e até por pastores de diferentes denominações, que ressaltaram que divergência cultural ou política não justifica a associação simbólica a doenças graves como forma de punição. Para defensores do Estado laico, a fala ultrapassa o campo da opinião religiosa e flerta com a desumanização do outro.
Histórico de posicionamentos políticos
À frente da AD Perus há cerca de duas décadas, Elias Cardoso consolidou liderança interna e também projeção política. Em setembro do ano passado, foi homenageado pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo com o Colar de Honra ao Mérito Legislativo, por iniciativa do deputado estadual André Bueno (PL), reconhecimento que evidenciou sua interlocução com setores conservadores.
O pastor já havia se envolvido em outras controvérsias. Durante as eleições de 2022, declarou apoio à reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro, afirmando que ele representaria melhor a “defesa dos princípios cristãos”. Em outro momento, disse ser “proibido crente se filiar a partido de esquerda”, citando legendas como PT, PSOL e PCdoB — posicionamento que foi criticado por especialistas em direito constitucional por possível constrangimento ao exercício da liberdade política dos fiéis.
Durante a pandemia, também divulgou vídeo afirmando que “a esquerda está endemoniada contra a Igreja”, reforçando uma narrativa de perseguição religiosa.
Cultura, fé e guerra simbólica
O episódio envolvendo a Acadêmicos de Niterói ocorre em meio ao histórico tensionamento entre manifestações culturais do Carnaval e setores do evangelicalismo conservador. Tradicionalmente marcado por sátiras e críticas sociais, o Carnaval frequentemente provoca reações de lideranças religiosas que enxergam nas apresentações afrontas a valores cristãos.
No entanto, ao associar uma crítica cultural à possibilidade de uma doença grave, o pastor elevou o tom do embate. A homenagem a Lula foi interpretada por ele como provocação direta à fé evangélica. Para críticos, a reação revela uma crescente confusão entre identidade religiosa e preferência partidária, transformando divergência política em batalha espiritual.
Mais do que um embate pontual, o caso expõe o desafio contemporâneo de convivência entre liberdade religiosa, liberdade artística e pluralidade democrática — pilares que, embora distintos, precisam coexistir em uma sociedade que se pretende diversa e democrática.



