Goiana com deficiência visual é aprovada na OAB na primeira tentativa e supera barreiras com tecnologia assistiva
Aos 24 anos, Maria Vitória Gomes da Silva, de Goianésia, no interior de Goiás, conquistou a aprovação no 46º Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) na primeira tentativa. Com deficiência visual, ela utilizou tecnologia assistiva e recursos de acessibilidade durante a preparação e a realização das provas para alcançar um dos principais objetivos de sua trajetória profissional.
Em entrevista ao Mais Goiás, Maria Vitória contou que foi alfabetizada em Braille ainda na infância, com o apoio de uma professora especializada. Ao longo da formação escolar, também contou com a participação dos pais, de colegas e de profissionais que contribuíram para seu desenvolvimento acadêmico.
Sonho de seguir carreira jurídica começou aos 13 anos
A escolha pelo Direito aconteceu ainda na adolescência. Aos 13 anos, Maria Vitória decidiu que queria seguir carreira na área jurídica. Embora tenha considerado outras possibilidades ao longo do tempo, o interesse pela profissão permaneceu.
“Eu falo que é um curso que combina muito comigo. Hoje, eu percebo que não seria tão realizada se tivesse feito outra faculdade”, afirmou.

Ela concluiu o ensino médio em 2020 e ingressou na graduação em Direito no ano seguinte. Poucos dias depois de começar a faculdade, conseguiu uma oportunidade de estágio na Delegacia da Polícia Civil de Goianésia, onde permaneceu por três anos.
Posteriormente, foi selecionada para estagiar no Ministério Público, instituição em que trabalhou até concluir a graduação, em dezembro de 2025.
Durante a formação, Maria Vitória recebeu homenagens da Câmara Municipal de Goianésia pelo destaque acadêmico e, posteriormente, como egressa do curso. Mesmo após concluir a faculdade, ela mantém vínculo com a instituição de ensino por meio da participação em um grupo de pesquisa.
Tecnologia foi essencial para conquistar a aprovação
Durante a preparação para o exame da OAB, Maria Vitória utilizou um leitor de tela, ferramenta que transforma o conteúdo exibido no computador em áudio. O recurso permitiu que ela acessasse materiais de estudo, acompanhasse videoaulas e resolvesse questões com mais autonomia.
“Então, a tecnologia foi indispensável para que eu conseguisse ter autonomia para estudar”, destacou.
A aprovação veio após as duas etapas do exame, realizadas em maio e junho de 2026. Para fazer as provas, a candidata solicitou adaptações de acessibilidade, incluindo tempo adicional, computador com leitor de tela e auxílio de profissionais responsáveis pela leitura e transcrição.
Na primeira fase, ela conseguiu utilizar o computador para acessar o conteúdo. Maria Vitória ditava as respostas, que eram registradas pela profissional responsável pela transcrição.
Na segunda etapa, entretanto, problemas com os dois teclados disponibilizados pela organização dificultaram o uso do equipamento. Com isso, ela precisou depender ainda mais do auxílio da profissional.
Mesmo diante das dificuldades, a candidata ditou todas as respostas, incluindo palavras e sinais de pontuação. Quando necessário, soletrava termos para evitar erros na transcrição. Durante a consulta ao vade-mécum, livro de referência jurídica permitido nessa fase, também orientava a profissional sobre as informações que precisava localizar.
A conquista foi resultado da preparação, do uso dos recursos de acessibilidade e do apoio recebido de familiares, amigos e professores.
Advogada relata preconceito contra pessoas com deficiência
Apesar da conquista profissional, Maria Vitória também enfrenta situações de preconceito. Após publicar fotos de sua formatura nas redes sociais, recebeu diversas mensagens de felicitações e apoio, mas também foi alvo de comentários discriminatórios relacionados à sua aparência e aos seus olhos.
“Apesar de toda a evolução da sociedade, ainda tem esse preconceito”, afirmou.
A advogada contou que não conseguiu ler e responder a todas as mensagens devido ao grande volume de interações. Mesmo assim, procura não deixar que as ofensas definam a maneira como se enxerga.
“Eu acredito que a pessoa está falando sobre ela e não sobre mim”, declarou.
Próximo objetivo é a carreira no Ministério Público
Com a aprovação na OAB, Maria Vitória dá mais um passo na construção de sua carreira jurídica. Para o futuro, ela pretende continuar se aperfeiçoando na área e prestar concurso para a promotoria.
Sua trajetória destaca não apenas a conquista da aprovação no exame, mas também a importância da tecnologia assistiva, das adaptações de acessibilidade e do combate ao preconceito para garantir oportunidades às pessoas com deficiência.




