Banco Master e o Tocantins: documentos oficiais revelam contratos com o governo e levantam novos questionamentos
Convênios firmados em 2023 envolveram crédito consignado e cartão de crédito para servidores públicos; representante do banco que aparece nos documentos posteriormente se tornou alvo de investigação da Polícia Federal
Documentos oficiais do Governo do Tocantins revelam que o Banco Master manteve relações contratuais com órgãos da administração estadual para oferecer produtos financeiros a servidores públicos.
Os registros, publicados no Diário Oficial do Estado, mostram que os acordos envolviam operações de crédito consignado e cartão de crédito, modalidades que permitem o desconto das parcelas diretamente na folha de pagamento dos servidores.
Um dos documentos chama atenção pela data e pelos nomes envolvidos.
Em 18 de agosto de 2023, o Instituto de Gestão Previdenciária do Estado do Tocantins, o IGEPREV, assinou o segundo termo aditivo ao Convênio nº 08/2021 com o Banco Master.
O objetivo do aditivo era ampliar o acordo existente e incluir a operação de cartão de crédito.
Na ocasião, o documento foi assinado pelo então presidente do IGEPREV, Sharlles Fernando Bezerra Lima, e pelo representante do Banco Master, Luiz Antônio Bull.
Onze dias depois, em 29 de agosto de 2023, outro acordo foi firmado.
Desta vez, a Secretaria de Estado da Administração celebrou o Convênio nº 15/2023 com o Banco Master para a concessão de empréstimos pessoais aos servidores públicos civis e militares ativos do Poder Executivo estadual.
O contrato previa que as operações fossem realizadas mediante averbação das consignações diretamente na folha de pagamento.
O documento foi assinado pelo então secretário de Estado da Administração, Paulo César Benfica Filho, e pelos representantes do Banco Master Luiz Antônio Bull e Allan da Silva Machado.
O nome que ganhou destaque anos depois
Entre os nomes que aparecem nos documentos oficiais está Luiz Antônio Bull.
Na época dos contratos, Bull figurava como representante do Banco Master nas negociações com o poder público.
Anos depois, o executivo passou a aparecer em outro contexto: o das investigações envolvendo o Banco Master.
Bull foi alvo da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, que apura suspeitas relacionadas a operações financeiras envolvendo a instituição.
Ele chegou a ser preso preventivamente durante a investigação e posteriormente passou a responder sob medidas cautelares.
Em 2026, a Justiça autorizou medidas de investigação relacionadas ao executivo, incluindo a quebra de sigilos bancário e fiscal.
É importante ressaltar que ser investigado, ter sigilo quebrado ou ser alvo de medida cautelar não significa condenação. Eventuais responsabilidades ainda dependem da conclusão das investigações e das decisões judiciais.
E onde entra o Governo do Tocantins?
Os documentos analisados não mostram o governador Wanderlei Barbosa como signatário dos convênios firmados com o Banco Master em agosto de 2023.
Os contratos foram assinados por dirigentes e secretários responsáveis pelas respectivas áreas da administração estadual.
Isso, porém, não elimina a necessidade de esclarecer a dimensão e os resultados dessas operações para o Estado.
A questão central é saber quanto dinheiro foi movimentado por meio dos contratos, quantos servidores foram alcançados e quais mecanismos de fiscalização foram utilizados pelo poder público.
Também é necessário esclarecer se, após o surgimento das investigações envolvendo o Banco Master, o Governo do Tocantins realizou algum levantamento sobre os contratos anteriormente firmados com a instituição.
Uma relação financeira que merece ser esclarecida
A relação do Governo do Tocantins com instituições financeiras não terminou nos documentos de 2023.
Em dezembro de 2024, já durante a gestão do governador Wanderlei Barbosa, o Estado firmou contrato com o Banco de Brasília, o BRB, para a operação da folha de pagamento e a prestação de serviços financeiros.
O negócio envolvia valores expressivos e previa pagamento de R$ 255 milhões ao Estado, com vigência de 60 meses.
Posteriormente, a operação passou a ser observada dentro do contexto da crise envolvendo o BRB e o Banco Master, que se tornou alvo de investigações das autoridades.
A existência desses contratos, entretanto, não permite afirmar, por si só, que tenha ocorrido qualquer irregularidade ou crime por parte do Governo do Tocantins ou do governador Wanderlei Barbosa.
O que existe são documentos oficiais que comprovam relações contratuais e uma sequência de acontecimentos que merece ser examinada com atenção.
As perguntas que permanecem
A documentação levanta uma série de perguntas que interessam diretamente aos servidores públicos e à sociedade tocantinense.
Quanto foi movimentado pelo Banco Master em empréstimos consignados no Estado?
Quantos servidores públicos contrataram empréstimos ou cartões de crédito oferecidos pela instituição?
Quanto foi descontado diretamente das folhas de pagamento?
Existem reclamações administrativas ou processos judiciais envolvendo essas operações?
O IGEPREV realizou algum acompanhamento específico dos contratos?
A Secretaria da Administração realizou auditorias ou avaliações sobre os serviços prestados pelo banco?
E, depois que as investigações envolvendo o Banco Master vieram a público, o Governo do Tocantins adotou alguma medida para revisar ou reavaliar os contratos?
São perguntas que podem ser respondidas por documentos públicos e pelos próprios órgãos envolvidos.
O documento é oficial. A suspeita precisa ser apurada.
A reportagem não afirma que os contratos de 2023 tenham sido ilegais, nem estabelece qualquer relação entre as investigações atuais envolvendo o Banco Master e os agentes públicos que assinaram os documentos.
O que os registros oficiais mostram é que o banco possuía contratos com órgãos do Governo do Tocantins para operações destinadas a servidores públicos e que um dos representantes da instituição que aparece nesses documentos posteriormente passou a ser investigado no âmbito de uma operação da Polícia Federal.
É justamente por isso que os contratos merecem ser revisitados.
Quando valores públicos, folha de pagamento de servidores e instituições financeiras entram na mesma equação, a transparência e a fiscalização deixam de ser apenas uma formalidade e passam a ser uma questão de interesse público.
Agora, cabe aos órgãos responsáveis esclarecerem os valores, a quantidade de operações realizadas, os critérios utilizados para os convênios e quais providências foram adotadas diante dos fatos que vieram à tona posteriormente.
A documentação está disponível. As perguntas estão colocadas. E a sociedade tocantinense tem o direito de conhecer as respostas.




