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De joelhos diante das máquinas: a dor de uma viúva de 78 anos que viu sua história ser arrancada da própria terra em Catalão

Defesa de Maria da Paz acusa Governo de Goiás de criar narrativa para justificar ação com máquinas e aparato policial; família afirma que nunca foi contra a rodovia, mas luta para proteger o restante da propriedade

A imagem de uma senhora de 78 anos ajoelhada diante de máquinas pesadas, implorando para que não avançassem sobre a terra onde construiu toda a sua vida, chocou Goiás e ganhou repercussão em todo o país. O rosto marcado pelo tempo, a voz embargada e o desespero de quem teme perder não apenas um pedaço de chão, mas décadas de história, transformaram Dona Maria da Paz em símbolo de uma discussão que ultrapassa números, laudos e processos judiciais.

Enquanto o Governo de Goiás sustenta que a desapropriação segue os trâmites legais e que houve depósito judicial de R$ 550 mil referente à área atingida pela duplicação da GO-330, a defesa da família afirma que a realidade é muito diferente daquela apresentada oficialmente. Segundo a advogada Vanessa Ferreira, o Estado estaria tentando construir uma narrativa para justificar a entrada de máquinas e o uso de força policial dentro da propriedade rural.

A advogada rebate ainda as informações que circulam nas redes sociais e em parte da imprensa de que a família teria exigido valores milionários para liberar a área. Segundo ela, é falsa a versão de que os proprietários teriam pedido R$ 10 milhões. O verdadeiro impasse, afirma a defesa, não está na construção da rodovia, mas em uma segunda área da fazenda destinada à retirada de cascalho para abastecer a obra.

De acordo com Vanessa Ferreira, Dona Maria da Paz jamais se opôs à duplicação da GO-330. A própria família teria permitido o reposicionamento da cerca para delimitar a faixa destinada à passagem da rodovia. O conflito começou quando o governo decidiu avançar para dentro da propriedade, em uma área utilizada pela família e que, segundo os proprietários, poderá comprometer o restante da atividade rural desenvolvida no local.

Mais do que uma disputa financeira, a família afirma estar defendendo sua sobrevivência. A preocupação, segundo a defesa, é que a retirada de material da chamada “caixa de empréstimo” provoque impactos permanentes na propriedade onde vivem e trabalham há décadas. O temor é que aquilo que hoje é apresentado como uma intervenção temporária deixe consequências irreversíveis para a produção e para o sustento da família.

O episódio também reacendeu o debate sobre os limites do poder público diante do direito de propriedade e sobre a forma como desapropriações vêm sendo conduzidas em grandes obras de infraestrutura. Embora a duplicação da GO-330 seja considerada estratégica pelo governo estadual e envolva dezenas de desapropriações ao longo do trecho entre Catalão e Ipameri, produtores rurais têm denunciado dificuldades nas negociações e divergências sobre os critérios de indenização.

Em meio à tensão registrada na propriedade, um detalhe não passou despercebido por moradores da região: os policiais presentes na ação. Apesar da forte repercussão das imagens, é importante destacar que os agentes de segurança que estavam no local não atuavam por decisão própria. Eles cumpriam determinações legais e ordens relacionadas ao cumprimento da decisão judicial que autorizou a imissão de posse da área desapropriada. A responsabilidade pela condução do processo e pelas decisões administrativas permanece sob a esfera do poder público e dos órgãos responsáveis pela obra.

Nas redes sociais, a cena da idosa ajoelhada diante das máquinas tornou-se um poderoso símbolo da fragilidade do cidadão comum diante da força do Estado. Para muitos, a imagem representa o choque entre o chamado progresso e a preservação da dignidade humana. Para outros, evidencia a necessidade de que obras públicas avancem sem ignorar histórias de vida construídas ao longo de gerações.

Enquanto a disputa segue nos tribunais, Dona Maria da Paz continua aguardando aquilo que diz ter buscado desde o início: diálogo. Não para impedir uma rodovia. Não para barrar o desenvolvimento. Mas para que sua voz seja ouvida antes que a terra onde criou sua família seja transformada para sempre.

Porque, para quem observa apenas mapas, decretos e números, pode parecer apenas uma área rural. Mas para uma mulher de 78 anos, aquela terra é a própria memória de uma vida inteira.

As informações sobre o depósito judicial, a posição da Goinfra, a repercussão do caso e as desapropriações ligadas à duplicação da GO-330 foram divulgadas por veículos da imprensa goiana e por notas relacionadas ao processo.

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