Com crescimento acelerado dos cafés premium, setor investe em grãos selecionados, sustentabilidade e novos drinks para transformar o tradicional cafezinho em experiência gastronômica
O tradicional cafezinho segue firme na rotina do brasileiro, mas o mercado já não é mais o mesmo. Cada vez mais exigente, o consumidor tem buscado qualidade, origem e informação sobre o que consome, movimento que impulsiona o crescimento dos cafés premium e transforma cafeterias em verdadeiros espaços de experiência gastronômica.
De acordo com a analista do Sebrae Goiás, Camilla Carvalho, o avanço dos cafés especiais não elimina a tradição, mas amplia as possibilidades do setor. “O cafezinho tradicional continua tendo seu valor, mas o segmento de cafés especiais cresce a cada ano. As cafeterias se diferenciam pela qualidade superior e pela experiência oferecida. São grãos selecionados, de origem controlada, com rastreabilidade. O processamento e a torra são feitos para realçar aromas e sabores mais complexos, como notas frutadas, florais ou achocolatadas”, explica.
Além do sabor, o posicionamento de marca e as boas práticas de sustentabilidade também se tornam diferenciais competitivos. O café deixa de ser apenas uma bebida cotidiana e passa a representar estilo de vida, valorização do produtor e consumo consciente.
Em Goiânia, essa tendência já é realidade. Proprietário do Grupo Estação 14, Pablo Jaime observa uma mudança clara no comportamento do público. “O Brasil é o maior produtor de café do mundo e tem um mercado muito forte. Mas o consumidor está mais atento à origem, à qualidade e às informações do produto. Isso muda completamente a forma de consumir”, analisa.
Segundo ele, o apoio do Sebrae tem sido essencial para quem atua ou deseja empreender no segmento, especialmente diante da projeção de que o consumo global da bebida deve dobrar nos próximos oito anos. Camilla reforça que o crescimento abre oportunidades principalmente para pequenos negócios, maioria no setor. “O Sebrae apoia com capacitações, consultorias em gestão, marketing, atendimento e padronização de processos, além de ações de acesso a mercado e promoção, como a Rota Goiânia Gastronômica”, destaca.
A Rota Goiânia Gastronômica é uma iniciativa permanente que reúne pequenos negócios da capital, incluindo 13 cafeterias especiais. A proposta é proporcionar experiências únicas a moradores e turistas, fortalecendo o posicionamento das marcas locais e estimulando o consumo qualificado.
Outro fator que tem contribuído para a valorização dos cafés premium é a percepção de benefícios à saúde. Pablo Jaime aponta que esses produtos passam por processos mais cuidadosos de torra, o que reduz a presença de substâncias indesejáveis. “O café premium pode ter características nutracêuticas e costuma ser consumido sem açúcar, que é outra tendência. O tradicional muitas vezes é visto como vilão, mas o café de qualidade melhora essa imagem”, afirma.
A inovação também chega ao cardápio. Cafés especiais têm sido combinados com ingredientes como cana-de-açúcar, água de coco e laranja, ampliando o leque de drinks e atraindo novos públicos. “É uma oportunidade de explorar sabores e criar novas experiências”, sugere o empresário.
Dados do estudo elaborado pelo Sistema de Inteligência Setorial (SIS) do Sebrae, com base em pesquisa da Euromonitor, mostram que o mercado brasileiro de café premium cresce 15% ao ano, enquanto o café tradicional avança 3,5% anualmente. O consumo de café premium já gira em torno de 70 mil toneladas por ano, representando entre 5% e 10% do total consumido no país — percentual que tende a crescer nos próximos anos.
A Organização Internacional do Café (OIC) aponta ainda que o Brasil é o segundo maior consumidor mundial da bebida, responsável por 13% da demanda global, atrás apenas dos Estados Unidos, com 14%.
Com cerca de 3,5 mil cafeterias especializadas no país — número que pode chegar a 13 mil quando incluídos bares, padarias e lanchonetes — o setor mostra força e dinamismo. Entre tradição e inovação, o mercado de café se reinventa e consolida uma tendência: mais do que beber café, o brasileiro quer viver a experiência.



